Diário do Alentejo

Vindimas: Produção pode chegar aos 120 milhões de litros

06 de setembro 2019 - 08:00

Com as vindimas em pleno, a perspetiva é que a campanha seja uma das mais produtivas de sempre. A produção de vinho não deverá chegar aos 122 milhões de litros registados em 2014, mas não irá andar longe, com a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana a prever um aumento entre cinco e 10 por cento comparativamente com o ano passado.

 

Texto Luís Godinho

 

São mais de 1500 hectares de vinha, explorados por cerca de 300 agricultores. Na Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito (ACV), a maior produtora de vinho do Baixo Alentejo, as vindimas estão em pleno e assim deverão continuar durante a próxima semana. A azáfama é a habitual, com o vaivém constante de tratores a descarregarem uva. O cheiro a mosto lembra-nos que as vindimas estão em pleno. As prensas trabalham de forma quase ininterrupta. Já há vinhos fermentar: só nos primeiros dias, conta José Miguel Almeida, presidente da ACV, foram colhidos 1,5 milhões de quilos de uvas tintas e à volta de um milhão de brancas, entre as quais pontificam as da casta Antão Vaz.

 

Ao contrário da perspetiva regional, que aponta para um crescimento de produção superior a cinco por cento, se comparada com a campanha de 2018, na Vidigueira o saldo final não deverá ser tão otimista: "Tenho contrariado essa ideia de um grande aumento de produção, pelo menos aqui na nossa zona. Esperamos uma produção idêntica à do ano passado ou até ligeiramente inferior". Não que o ano não seja bom, antes pelo contrário. Sucede que 2018 foi, por estas bandas, um dos melhores de sempre. Apesar do "escaldão" no início de agosto, do qual resultou uma perda de 30 por cento da produção esperada, foram colhidos nove milhões de quilos de uvas, pelo que dificilmente a vindima agora em curso será mais produtiva.

De qualquer das formas, 2019 será sempre um ano para ficar na memória de produtores e consumidores, tanto pela quantidade de uvas produzidas como pela qualidade dos vinhos que irão originar. À "boca pequena", não vá a meteorologia complicar o que por agora parece feito, diz-se por aqui que, em termos gerais, estes serão os melhores vinhos da década, mesmo superiores aos da colheita de 2011, sobretudo no que aos tintos diz respeito.


"Este continua a ser um ano pacífico, do ponto de vista qualitativo. O tempo aqueceu um pouco nesta fase final, o que provoca alguma desidratação das uvas, mas a verdade é que se registou uma maturação muito suave, as plantas não pararam de progredir ao longo do processo de maturação, registamos graus alcoólicos elevados e tudo se conjuga para uma produção com muita qualidade", acrescenta José Miguel Almeida, sem esconder que, apesar de tudo, há uma preocupação que se mantém presente em todos os produtores de vinho no Alentejo: as consequências das alterações climáticas.

 

"As variações climáticas são cada vez mais frequentes e mais intensas. O ano passado houve uma verdadeira catástrofe, provocada por temperaturas anormalmente elevadas mesmo no início das vindimas. Este ano, na mesma altura, houve vinhas prejudicadas pela queda de granizo, da qual resultou perda de produção. Foi um fenómeno muito localizado, é certo, mas vem demonstrar que os efeitos das alterações climáticas são uma realidade bem presente neste setor", sublinha.

Ao contrário da perspetiva mais "conservadora" da ACV, a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) recorre ao método polínico (recolha de pólen na fase de floração), utilizado desde há duas décadas numa parceria com a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, para antever um aumento global na produção de vinho entre cinco e 10 por cento comparativamente com a campanha do ano passado. Caso a previsão se concretize, a região poderá produzir entre 115 a 120 milhões de litros, volume superior à média dos últimos cinco anos, que foi de 110 milhões, mas ainda assim inferior às de 2010 e 2014, até agora o melhor ano de sempre com uma produção de 122 milhões de litros.


“A previsão é um instrumento essencial para calcular o nível de stocks e a capacidade de resposta às necessidades do mercado”, refere Francisco Mateus, presidente da CVRA, adiantando que “serão as condições climatéricas a ditar a quantidade de uvas que se vai produzir no Alentejo”. Na região, cuja dimensão está entre as maiores de Portugal, com cerca de 22 500 hectares de vinha, as vindimas iniciaram-se em agosto e deverão prolongar-se até aos primeiros dias de outubro.

 

Nos 130 hectares de vinha da Margaça, em Pias, as vindimas estão também em pleno. Luís Margaça, o neto do fundador da Sociedade Agrícola de Pias que hoje se encontra à frente da exploração, confirma a existência de bons teores de álcool num ano que será marcado por um aumento da produção comparativamente com a média dos últimos anos: “Deveremos chegar ao milhão de litros”. 

 

No ano passado, à semelhança do resto do País, o Alentejo foi atingido por uma vaga de calor, na primeira semana de agosto, que provocou “escaldão” nas uvas e perdas de produção em vários agricultores. Segundo Francisco Mateus, dois em cada três viticultores registaram perdas, mas o facto de ter havido chuvas intensas na primavera e mais área de vinha em produção "atenuou" os prejuízos, tendo permitido ao Alentejo registar 109 milhões de litros (19 por cento da produção nacional) e inverter um ciclo de três anos de queda. De acordo com dados do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), a produção de vinho na região alentejana foi de 115 milhões de litros em 2015, tendo diminuído para 105 milhões em 2016 e para 95 milhões em 2017.

 

40 por cento do mercado nacional

Os vinhos alentejanos continuam a ser os preferidos dos consumidores portugueses. Nos primeiros seis meses do ano, os vinhos com a marca Alentejo registaram vendas no valor de 125,8 milhões de euros, conquistando 40,7 por cento do mercado nacional e uma vantagem folgada sobre a segunda região, o Douro, que registou vendas no valor de 56,9 milhões de euros. O Minho (região onde se incluem os vinhos verdes) ocupa a terceira posição, com vendas de 45,2 milhões de euros.

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