Diário do Alentejo

Serpa: Flávio Horta expõe desenho e pintura

21 de junho 2019 - 10:00

Texto José Serrano


Ainda que tenha nascido em Évora, considera-se natural de Figueira dos Cavaleiros, Ferreira do Alentejo. Vive e trabalha em Beja. Autodidata, desde muito cedo manifestou interesse por se exprimir através do desenho e da pintura. Foi evoluindo com persistência, quase sempre em autoaprendizagem. O meio rural em que cresceu acaba por ter um “peso” importante nos temas do seu trabalho. Recorrendo à cor, outras vezes ao monocromático, é através de um realismo contemporâneo que nos últimos anos se tem expressado artisticamente, representando as gentes da sua região, entre outros temas. A figura humana está quase sempre presente, direta ou indiretamente no papel ou na tela pintada.



Está em exibição, até ao dia 31 de agosto, na Casa do Cante, em Serpa, a exposição de desenho e pintura “Terra sagrada do pão”, da autoria de Flávio Horta. Inaugurada na passada semana, a mostra é constituída por 20 obras em que a composição, o traço e a figura humana surgem como representação “de um povo onde não há tempo, onde o novo e o velho se encontram, onde se pintam histórias com tradição deste Alentejo”.


É esta exposição uma “desenvergonhada” jura de amor eterno ao Alentejo?
É como se houvesse um cordão umbilical que teima em não ser cortado, por vezes até contra a minha própria vontade. Como artista plástico, gosto de desafios e procuro ir sempre um pouco mais além, daí também não ter como objetivo limitar-me a este tema. Mas como o Alentejo teima em não sair de mim, e porque é extraordinariamente inspirativo, tenho deixado fluir, embora tivesse a necessidade de o reinventar na sua representação. Gosto de desenhar e pintar pessoas, são elas que representam esta terra, no meu trabalho.


A “Terra sagrada do pão”, que pinta, é ainda real ou vive apenas na nostalgia criativa da memória?
Posso descrever grande parte do trabalho exposto na Casa do Cante, em Serpa, sobretudo as telas de maior dimensão, como uma simbiose entre a nostalgia do passado e elementos contemporâneos. Como uso referências fotográficas para a minha pintura, tenho desafiado, de há uns tempos para cá, amigos e familiares a usarem trajes tradicionais misturados de forma improvável com elementos quotidianos que fazem parte dos próprios modelos e da globalização em que estamos inseridos. Somos uma região que não se esgota na memória do passado, queremos acompanhar o presente, projetar-nos no futuro, sem esquecer, no entanto, de onde viemos.


O nome da exposição é um dos versos da moda “Alentejo, Alentejo”. São algumas destas obras “quadros cantados”, homenagens a todos aqueles que cantam?
Sim, certamente. De facto é um tema que gosto de representar no trabalho que faço e nesta mostra não vai ser exceção. Um amigalhaço meu e grande cantador, Tiago Serrano, tem uma frase que define na perfeição as nossas polifonias: “O cante é o murmúrio solene da terra que nos chega através da alma dos homens”… porque, de facto, mais do que usar a voz é preciso puxar da alma para cantar a moda.


Qual o maior elogio com que alguém que visite esta exposição o poderá presentear?

Ficarei feliz se me disserem que foram “tocados” e ficaram emocionados pelo meu trabalho, mais do que ouvir que as minhas obras estão tecnicamente bem executadas. A arte, tenha as formas que tiver, tem essa missão de chegar às pessoas e “tocar-lhes” na alma e nos corações.

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