Diário do Alentejo

Museu de BD de Beja abrirá no próximo ano

09 de janeiro 2026 - 08:00
Financiamento para o projeto arrancar encontra-se aprovado
Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

Com um valor estimado em mais de 1,2 milhões de euros, financiado por fundos comunitários em 85 por cento, estima-se que o futuro Museu de Banda Desenhada de Beja abra ao público em 2027, uma década após a intencionalidade apresentada de concretização de “um sonho de muitas pessoas”. O presidente da Câmara de Beja, Nuno Palma Ferro, sublinha a importância do equipamento, classificando-o como uma das culturais “estacas fortes” previstas para a cidade, no sentido da revitalização do seu centro histórico. Por sua vez, Paulo Monteiro, diretor do Festival internacional de BD de Beja, considera que este espaço museológico, o primeiro em Portugal ligado à “nona arte”, permitirá que Portugal passe a integrar um roteiro internacional de museus europeus e que Beja se localize no centro da BD europeia.

 

Texto José Serrano

 

De acordo com um comunicado divulgado, na terça-feira, dia 6, pela câmara municipal, o futuro Museu de Banda Desenhada (BD) de Beja abrirá portas em 2027. Com um investimento global de cerca de um milhão e 274 mil euros, financiado a 85 por cento por fundos do programa Alentejo 2030, e a 15 por cento pela autarquia, o projeto, “há muito ambicionado e agora aprovado”, que reforçará a “longa e reconhecida tradição da cidade no domínio da banda desenhada”, prevê a reabilitação de um edifício devoluto no centro histórico, localizado na rua Dr. Afonso Costa, comumente conhecida como rua das lojas, para acolher o novo equipamento cultural. Para o atual presidente da Câmara Municipal de Beja a criação deste museu representará para a cidade e para o concelho ganhos inquestionáveis, uma vez que captará “dentro de um nicho específico” – o dos amantes de banda desenhada –, “muitos visitantes”, que, com o mote de visitar este que será o primeiro museu de BD em Portugal, “acabarão por conhecer Beja”, de uma forma mais generalizada, retribuindo-lhe as devidas “mais-valias”, a vários níveis, que a presença turística, neste caso, de âmbito cultural, é capaz de oferecer, considera Nuno Palma Ferro. Desta forma, o autarca sublinha a importância que o executivo a que preside, desde há pouco mais de dois meses, atribui e dará à existência de uma oferta cultural robusta, que se pretende revelada através do incremento de uma “prática de hábitos culturais por parte dos bejenses”, bem como na capacidade de atrair “novos públicos” visitantes – “esse é o nosso caminho, a estratégia onde ‘poremos força’”. Assim, o edil faz questão de referenciar este projeto inserido numa estratégia articulada, conjunta, de várias outras iniciativas e valências que se pretendem concretizar, no âmbito de uma lógica de revigoração urbana. “Este museu faz parte de um pensamento global que temos para Beja e será mais um contributo, a par de muitíssimos outros, que pretendemos implementar – estamos muito empenhados em pô-los em prática –, no sentido da revitalização do nosso centro histórico, que queremos muito mais atrativo”. Um outro destes contributos que o executivo pretende ver capaz de receber visitantes é o fórum romano de Beja, a poucos passos do edifício que acolherá o futuro museu de BD, considerando Nuno Palma Ferro que estas duas estruturas “terão de ser estacas fortes” da oferta cultural que a urbe deverá proporcionar, imprescindíveis “na nossa forma de ver o centro histórico, a cidade, o concelho, a nossa história e, também, o nosso futuro”.

A “cara” do projeto Paulo Monteiro, diretor da bedeteca e do Festival internacional de BD de Beja, revelando ao “Diário do Alentejo” que a abertura do concurso para a obra será lançada “ainda durante este mês”, regozija-se com a notícia da maioritária comparticipação financeira de fundos europeus, que obriga “a uma série de compromissos que têm de ser obrigatoriamente cumpridos”, conduzindo à efetivação do museu, que começou a ser delineado em 2016. “No fundo, todo este gigantesco trabalho feito ao longo destes 10 anos, que envolveu muitas pessoas, viagens, conversas e um nível de compromisso muito grande com mais de uma centena de doadores, que estavam na expetativa, confluiu precisamente nesta situação, uma vez que, depois de muitas fases ultrapassadas, era agora este, em termos práticos, o grande objetivo do projeto – conseguir financiamento. Agora é seguir em frente, sendo necessário cumprir uma série de trâmites, que o próprio Alentejo 2030 exige. Mas este ‘é um voo’ já planeado, um sonho de muitas pessoas que acaba por começar agora a ganhar uma forma palpável. E isto é espetacular, sinto uma enorme felicidade”. Tendo vindo a receber, ao longo desta semana, inúmeras felicitações, “de várias instituições, de muitos particulares, autores” e de vários museus de BD europeus, “de França, da Bélgica, da Polónia”, Paulo Monteiro sublinha que o dinâmico futuro espaço museológico – “a ideia é que seja um museu vivo, sempre em transformação e vivendo de uma grande relação com a comunidade, com as escolas e com outras instituições da cidade e da região” –, que terá um acervo “absolutamente extraordinário”, que medeia entre meados do século XIX e o início do século XXI, colocará Beja no centro da BD europeia. “Este equipamento vai permitir que Portugal passe a integrar um roteiro internacional de museus europeus de banda desenhada. A BD ultrapassou, há muito, o mero puro entretenimento, afirmando-se como uma arte que nos coloca hoje uma série de questões e é muito importante que nós façamos parte deste grupo de países que constituem este movimento de vanguarda”, acentua.O Museu de Banda Desenhada de Beja integrará um conjunto diversificado de espaços, incluindo três salas de leitura, onde ficará instalada a Bedeteca de Beja, atualmente sediada na casa da cultura da cidade, sete salas de exposição permanente, duas salas para exposições temporárias, uma sala destinada a oficinas pedagógicas, uma outra com função de loja, gabinetes, arquivo, terraço e outras valências complementares.O acervo do futuro museu é já particularmente relevante, contando com 1500 pranchas originais, esboços, manuscritos, maquetes e outros materiais, que percorrem toda a história da banda desenhada portuguesa, desde 1850 até à atualidade. Entre os cerca de 100 artistas representados, destacam-se, entre muitos outros, nomes maiores da cultura portuguesa, como Rafael Bordalo Pinheiro, Stuart de Carvalhais ou Carlos Botelho. O novo museu, frisa o comunicado da câmara municipal, surge, assim, “como um passo decisivo na consolidação de Beja enquanto território de criação, preservação e difusão da banda desenhada, reforçando o seu posicionamento no panorama cultural nacional e internacional”.

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