Olival continua a dominar a paisagem, seguido do amendoal. Paralelamente, culturas anuais estão a diminuir. Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), no “Anuário Agrícola do Alqueva 2025”, publicado nesta semana, salienta os milhões gerados pelo Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA) que contribuem fortemente para a economia nacional.
Texto Marco Monteiro Cândido
O EFMA atingiu o que os especialistas designam como a sua “velocidade de cruzeiro”, consolidando-se como o principal motor de transformação do Sul de Portugal. O recém-publicado “Anuário Agrícola de Alqueva 2025” revela uma região em profunda mutação, onde a segurança hídrica permitiu substituir o sequeiro tradicional por um regadio moderno e altamente produtivo. Contudo, os dados de 2025 mostram também um ajustamento estrutural: a paisagem está a tornar-se “permanente”, enquanto as culturas anuais perdem terreno para o olival e o amendoal.
A hegemonia das culturas permanentes
A tendência mais marcante do último ano é o reforço absoluto das culuras permanentes. Em 2025, estas ocuparam 87 por cento da área total do empreendimento, um salto significativo face aos 69% registados em 2017. O olival continuou a ser o “rei” indiscutível da região, cobrindo 76 728 hectares. Este setor não só modernizou a agricultura local, como posicionou Portugal como o 6.º maior produtor mundial de azeite, com as exportações nacionais a ultrapassarem os 1000 milhões de euros em 2023, segundo o anuário.O amendoal, embora tenha registado uma ligeira retração de área entre 2024 e 2025 (de 23 563 para 22 728 hectares), manteve-se como a segunda cultura mais expressiva. Esta pequena quebra é interpretada como um ajustamento técnico e estratégico, focado na substituição de variedades e na procura de maior eficiência produtiva após anos de expansão acelerada, refere a publicação.
O recuo das culturas anuais e o “adeus” à melancia
Em contraste, as culturas anuais enfrentaram um declínio acentuado, representando apenas 13 por cento da ocupação do solo em 2025. O milho, que durante anos foi a porta de entrada no regadio para muitos agricultores, viu a sua área reduzir-se em 25 por cento num único ano, caindo para 3674 hectares. A razão é estrutural: os solos equipados com sistemas de rega por pivot estão a ser maciçamente reconvertidos em olivais e pomares de frutos secos.O cenário é ainda mais drástico em hortícolas específicas. A melancia, que em 2024 ocupava 111 hectares, praticamente desapareceu em 2025, restando apenas cerca de um hectare de cultivo registado. Outras culturas tradicionais, como o tomate de indústria, também sofreram quebras de área e produção a nível nacional, influenciadas pela ausência de indústria transformadora local e pelos elevados custos de transporte até às fábricas do Ribatejo.
Um gigante económico com retorno garantido
Os números macroeconómicos de Alqueva são impressionantes. Entre 1995 e 2028 estima-se que o projeto contribua com 27 mil milhões de euros para a produção nacional e que possa gerar 12 mil milhões de euros em Valor Acrescentado Bruto (VAB). O investimento público revela-se altamente rentável: o Estado deverá recuperar o capital investido em menos de 30 anos, gerando um retorno fiscal de 1,2 euros por cada euro investido.Além do impacto financeiro, o EFMA viabiliza mais de 22 500 postos de trabalho e garante o abastecimento público de água a mais de 200 mil pessoas, combatendo o declínio populacional histórico da região.
Clima e sustentabilidade: os desafios do futuro
A campanha de 2025 não foi isenta de dificuldades. O inverno e a primavera foram marcados por uma pluviosidade excecional, destacando-se a depressão “Martinho” em março, que dificultou as sementeiras e afetou a polinização de várias fruteiras. Este cenário sublinhou a necessidade de uma gestão cada vez mais eficiente dos recursos hídricos e do investimento em infraestruturas de armazenamento.A sustentabilidade é agora a palavra de ordem. Iniciativas como o “Programa Alqueva Sustentável” visam melhorar a perceção pública do regadio e promover práticas que garantam a conservação do solo e o uso racional da água. A economia circular também ganha força com a valorização de subprodutos, como o bagaço de azeitona, que regressa à terra como fertilizante orgânico.Apesar do sucesso, o “Anuário Agrícola do Alqueva 2025” aponta desafios críticos para um futuro não tão distante assim: a escassez de mão de obra, a necessidade de políticas integradas para a inclusão de imigrantes e a pressão crescente sobre a habitação e as infraestruturas regionais.