Francisco Campaniço
Apesar dos riscos de colisão com um calendário de natureza política que não cívica e cultural, sabe-se agora, embora com expressivo atraso, que está agendada para amanhã, dia 31, a cerimónia de homenagem ao casal de arqueólogos Maria Maia e Manuel Maia, figuras marcantes no estudo da cultura do sudoeste peninsular. Este reconhecimento traduzir-se-á pela colocação de um obelisco no largo Vitor Prazeres, onde se situa o Museu da Lucerna, ilustrativo da personalidade dos evocados e do seu percurso enquanto investigadores.
O evento é o corolário de uma iniciativa cidadã, que remonta a novembro de 2023, quando um pequeno grupo de cidadãos¹ apresentou às duas autarquias com sede em Castro Verde – a câmara municipal e a união de freguesias – uma proposta naquele sentido, após o acolhimento pelos familiares do casal, que incluía também o reconhecimento ao historiador castrense Alves da Costa (dr. Gito), então acolhida favoravelmente, como era expectável.
A fundamentação destes reconhecimentos teve em consideração um apontamento do qual extraímos: “O historial do território municipal e da região foi no último meio século objeto de empenhada e competente investigação levada a cabo pelos arqueólogos Maria e Manuel Maia e pelo dr. Alves da Costa, abarcando distintos períodos que vão da I Idade do Ferro até ao início do século XX, considerando múltiplas facetas como no plano socioeconómico, de ocupação do território, da demografia e do ambiente rural e urbano.
São investigações distintas, e incidentes sobre períodos diferentes, os primeiros num quadro territorial mais vasto, no Sul, e o segundo dentro dos limites dos ‘Campos de Ourique’.
Destas investigações reconstruiu-se uma parte muito expressiva do mosaico que ilustra a história do território, das gentes e da cultura do ‘Campo Branco’, cujas características marcam indelevelmente e de forma diferenciadora a região alentejana, como resulta do valiosíssimo espólio documental delas saído, uma parte muito expressiva do qual acessível através de publicações e espaços museográficos que as autarquias locais, nalguns casos em parceria com outras entidades, em boa hora levaram por diante”.
No dia 29 de junho do ano transato, no feriado municipal, foi inaugurada a peça evocativa do historiador local, da autoria de Flávio Horta, período em que foi aceite a solução artística relativa ao casal de arqueólogos, da autoria de J. Rosa. Para ambas as situações os proponentes apontaram também para que, para além da realização de eventos públicos, deveria associar-se-lhes “ações complementares como a edição de publicação/folhetos alusivos e/ou colóquio/seminário versando as temáticas abordadas pelos investigadores”.
Reportando-nos à próxima homenagem ao casal de arqueólogos – e tal como foi apontado pelo quarteto da iniciativa cidadã – importa reiterar algumas das considerações que estão na origem da iniciativa, como vos damos conta: “Os arqueólogos Maria Adelaide Figueiredo Garcia Pereira Maia (1947-2011) e Manuel Maria da Fonseca Andrade Maia (1945-2021) desenvolveram durante décadas uma intensa atividade de investigação no território do Município de Castro Verde e no SUL, focado na arqueologia, tanto no período da Idade do Ferro como da ocupação pelo Império Romano, donde resultou um inestimável conhecimento sobre o povoamento na região, determinante para a compreensão da história do Sul da península, muito particularmente da ocupação romana no Baixo Alentejo.
A par desta investigação, ‘descobriram’ o célebre silabário da Espanca, elemento fundamental para a descodificação da Escrita do Sudoeste. Acrescem muitos outros testemunhos arqueológicos, como, por exemplo, os dois sui generis larnakes de Neves I (Castro Verde) e o famoso vaso de Balsa (Tavira).
Participaram nos pioneiros estudos de avaliação de impacto ambiental do empreendimento mineiro de Neves Corvo, donde resultou um expressivo e valioso espólio arqueológico que, a par das ‘lucernas votivas de Santa Bárbara de Padrões’, é hoje parte do espólio do Museu da Lucerna, equipamento cultural a cuja fundação estiveram ligados, onde exerceram as funções de responsáveis científicos e de diretores.
Deve-se ao casal de arqueólogos a enorme projeção da descoberta do atrás mencionado depósito votivo de lucernas de Santa Bárbara, de onde saiu a maior coleção de lucernas que se conhece dentro do universo do Império Romano.
O casal fixou residência em Castro Verde durante um largo período, onde contaram com a colaboração autárquica para as várias investigações/escavações que prosseguiram, e integraram a Cooperativa Cultural Cortiçol, entidade que protocolou com a câmara municipal o apoio a algumas escavações e instalação e o funcionamento do Museu da Lucerna ...”.
Agora, contrariamente ao que aconteceu em relação ao dr. Gito, cuja evocação não foi seguida de outras ações mais pedagógicas e mobilizadoras da comunidade, por razões que nos escapam, espera-se que a obra da dr.ª Maria Maia e do dr. Manuel Maia sejam objeto de divulgação acrescida em relação à que se colhe das suas publicações, do espólio arqueológico proveniente das suas investigações e dos seus estudos. Embora sem muita convicção², alimentamos a esperança que entidades, familiares, personalidades e outros investigadores ganhem o estímulo suficiente a partir desta evocação por forma a que a comunidade e jovens estudantes e investigadores aprofundem o conhecimento do território turdetano e das suas gentes, onde se inscreve esta pequena parcela do Campo Branco, em linha com o trabalho daqueles investigadores. Pela nossa parte, temos vindo a “soprar” algumas sugestões para reflexão, às quais reiteramos a atenção dos que poderão ir ao encontro da nossa visão em defesa da divulgação sistematizada das investigações e ideias em torno desta temática. Por exemplo: a criação de um sítio na Internet que nos mostre uma visita digital ao Museu da Lucerna e às múltiplas estações arqueológicas espalhadas pelo nosso território, designadamente, dentro do couto mineiro de Neves-Corvo, associando ao sítio o nome dos drs. Maia, a par da manutenção dos Encontros de Arqueologia do Sudoeste Peninsular³ e da edição (em versão digital) de uma Carta Arqueológica do Campo Branco, a partir dos estudos dos PDM. Paralelamente, sugere-se o envolvimento autárquico em Castro Verde numa pareceria colaborativa com a universidade, a tutela da arqueologia – o Instituto Público Património I.P. – e um sponsor para a investigação/escavação do Castelo Velho do Cobres⁴, que, seguramente, “esconde” uma das mais profícuas estações arqueológicas testemunhando a Idade do Ferro no Baixo Alentejo. Se a região continuar numa atitude mais distante destas questões, projetos interessantíssimos como o do Museu da Lucerna, do Museu da Escrita do Sudoeste ou do Tesouro da Basílica correm o risco de se transformar em depósitos de artefactos sem sentido, a jeito para que a poeira do tempo os invada e apague da nossa memória coletiva. A este propósito, como noutras situações, tenhamos presente a reflexão de Saramago quando refere: “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir”.
⁽¹⁾ Grupo informal constituído pelo jornalista Carlos Júlio, o notário Colaço Guerreiro, o ex-autarca Fernando Caeiros e o designer Joaquim Rosa, cidadãos que durante muitos anos privaram com o casal, no quadro das respetivas responsabilidades profissionais e institucionais.⁽²⁾ A avaliar pela displicência e indelicadeza com que os serviços da empresa mineira local, supostamente com atribuição para estas questões, rechaçou uma tentativa de envolvimento no processo, apesar da responsabilidade cultural e social que noutros tempos tiveram nestas questões.⁽³⁾ “Encontros de Arqueologia do Sudoeste Peninsular”, cuja edição inicial podemos dizer que ocorreu em Castro Verde no ano de 1988, sob a designação de “I Encontro de Arqueologia do Baixo Alentejo”, com o patrocínio do município local, onde estiveram presentes uma centena de investigadores, essencialmente, arqueólogos que exerciam na academia e investigavam nos territórios do Sul. Destes encontros têm saído dezenas de comunicações de excecional valia científica que, com o “Arquivo Distrital de Beja”, constituem documentos de excecional importância para a história dos territórios e das gentes do Sudoeste.⁽⁴⁾ Também conhecido como Castelo do Montel, um antigo povoado fortificado, na margem esquerda do rio Cobres, ocupado principalmente durante a Idade do Ferro.