Luís Miguel Fernandes, 35 anos,natural de Grândola
É mestre em Teologia Histórica pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) com a dissertação intitulada “D. José do Patrocínio Dias, o homem, o militar e o bispo restaurador da diocese de Beja (1884-1965) ”. Ordenado sacerdote em 2014, foi pároco nas localidades do Baixo Alentejo de Ervidel, Mombeja, Santa Vitória, Beringel, Messejana, Casével, Santa Bárbara de Padrões e São Marcos da Ataboeira. Desde 2015 é pároco de Castro Verde e, desde 2017, de Entradas. Frequenta a licenciatura em Direito Canónico no Instituto de Direito Canónico da UCP.
No passado dia 23 de março, no Seminário de Beja, foi apresentado o livro A Audácia Generosa de um Pastor: D. José do Patrocínio Dias – Bispo Restaurador da Diocese de Beja (1884-1965), da autoria do padre Luís Miguel Fernandes.
Qual a finalidade geral da sua obra?
Esta obra tem como finalidade redescobrir a figura de D. José do Patrocínio Dias nos diversos contextos em que viveu, dando à narrativa a abordagem científico/histórica que nos ajuda a compreender melhor a sua personalidade. Assim, desde a Covilhã, passando pela Coimbra académica, pelo ministério sacerdotal na cidade da Guarda, relendo a experiência como capelão-militar da I Grande Guerra, até chegar à diocese de Beja, os leitores fazem uma autêntica viagem de aventura no tempo, já que, em todos esses meios, ele soube verdadeiramente dar mostras da “audácia generosa de um Pastor”.
Quais os traços da personalidade de D. José do Patrocínio Dias, bispo de Beja entre 1920 e 1965, que marcaram o início do seu bispado, altura em que se vivia no território um clima adverso às instituições religiosas?
A sua serenidade, diante dos obstáculos, adquirida com a experiência de vida nos contextos mencionados, e, principalmente, a força da fé que sempre pautou as suas decisões. Saliento, também, a sua grande generosidade, desde o seu oferecimento para o sacerdócio, em 1907, que assume uma radicalidade quando parte como capelão-militar para acompanhar os soldados portugueses na I Guerra Mundial.
Pela sua dedicação à renovação da Igreja podemos dizer que na diocese de Beja existe um “antes” e um “depois” de José do Patrocínio Dias?
É com clareza que constatamos “um antes”, de germinação difícil do Evangelho, marcada com longos períodos de abandono e outras situações desagradáveis. E “um depois”, em que por ele foram criadas as estruturas de uma diocese – catedral, seminários, cabido – e de presença próxima da Igreja nesta região. Sobretudo, pelas imensas visitas pastorais e missões populares que realizou, pelo apoio aos pobres e pelas fundações de caridade, bairros sociais, colégios, contando com a colaboração da congregação das Oblatas do Divino Coração, por ele fundada. As sementes de fé e caridade que ia plantando por todo o Alentejo transformaram-se em trigo maduro que vigora ainda nos nossos dias. Ao ter feito autênticos empreendimentos de eternidade entre nós, é uma figura ímpar para não esquecermos a nossa identidade, a nossa história e, acrescento, a nossa missão como Igreja.
Sessenta anos após a sua morte, considera que o exemplo de José do Patrocínio Dias é ainda paradigmático da entrega de um sacerdote ao seu “rebanho”?
Porque amava a Cristo e por Ele vivia, amou-nos a nós, alentejanos, e fez-se um de nós. Ele mesmo escreveu: “Tendo nascido em terras da Beira, hoje sou alentejano e sou de Beja. Já não posso escrever o meu nome sem que lhe acrescente o nome desta cidade. O céu ma confiou. Com ela me identificarei até à imolação total”.
José Serrano