Diário do Alentejo

censura

19 de abril 2024 - 12:00
A gráfica do “Diário do Alentejo” nos dias da Revolução

Francisco Victor, Carlos Rocha e Domingos Gonçalves trabalhavam na gráfica do “Diário do Alentejo” quando o regime salazarista, a 25 de abril de 1974, “caiu” do poder. Do antes, não esquecem a tinta da caneta que, vezes sem conta, censurou o “canudinho [de provas] enrolado com muito cuidado” do jornal e as visitas frequentes da PIDE. Do dia, sorriem ao recordar a “alegria” e a “euforia” das pessoas “nos cafés, tascas e ruas” e da oportunidade, “com os cérebros da escrita” do “DA”, de “fazer e lançar um jornal como deveria ser”.

 

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Texto Ana Filipa Sousa de Sousa Ilustração Susa Monteiro

 

“Nos seus quase 43 anos de publicação esta é a primeira edição livre do ‘Diário do Alentejo’, nela se escrevendo sem quaisquer preocupações da interferência da censura à imprensa ou dos seus interessados e mais ou menos encapotados influenciadores.

Só por isso, ao redigirmos esta nota, não podemos furtar-nos àquela profunda e emocionada alegria que sempre se sente quando, após um longo e doloroso cativeiro, podemos, certo dia, respirar fundo e aspirar aos caminhos belos e operantes da liberdade de pensamento e de expressão”.

É desta forma que o “Diário do Alentejo” (“DA”) abre a sua edição de 26 de abril de 1974 num misto de “alegria” e “euforia” que atravessou as portas da redação e da gráfica para as primeiras páginas do “jornal antissistema”.

Francisco Victor, antigo paginador e impressor do “DA”, entrava “à uma da tarde [na gráfica] na praça da República” e, como era habitual, estava deitado quando a mãe o acordou “a dizer que tinha havido um golpe de estado”. “Abalei, nem lavei a cara nem nada, fui a correr para o jornal para acompanhar pela rádio os acontecimentos. Foi um desassossego”, recorda.

A “pouca informação” que chegava à oficina permitia que os tipógrafos fossem comentando os avanços do “movimento militar” – “olha a tropa já destruiu o governo”, “os pequeninos voltaram-se aos grandes” –, perceber a dimensão e as repercussões que o golpe estava a ter e que os jornalistas fossem redigindo “coisinhas pequenas” que, com o passar dos dias, “aumentaram” e deram lugar “a páginas quase inteiras” sobre o assunto.

A “queda do governo” apanhou grande parte da população de surpresa, contudo, segundo Carlos Rocha, na ocasião chefe de paginação do “DA”, “as pessoas diretamente ligadas ao jornal estavam politicamente muito avançadas” e “já há muito tempo” que esperavam que algo do género acontecesse.

“Foi uma grande alegria. Lembro-me da euforia e depois da transformação política que o jornal teve, porque antes estávamos amordaçados, mas, depois, como estávamos lá todos, como os cérebros da escrita estavam lá, foi só começar-se a fazer as coisas como deviam de ser, sem o medo da tal censura”, revela.

Ainda assim, Francisco Victor diz que nunca se esqueceu do momento, no dia 25, em que o “polícia Cunha” entrou na oficina do “DA” e lhes disse: “Tenham calma que isto ainda pode voltar para trás”. “Esta foi uma frase que nos ficou sempre na memória, mas a sorte é que ele abalou logo depois”, garante, com um sorriso.

“Cheguei a fazer a primeira página três vezes num dia” Fundado em 1932, o “DA” viveu as suas primeiras quatro décadas envolto na “ditadura de Salazar”, num período “muito difícil e complicado”. A censura fazia-se sentir com força, não havendo autorização para noticiar qualquer conflito externo, sendo apenas possível ler-se, por exemplo, em relação à guerra colonial, os comunicados oficiais das mortes dos militares em África.

“Antes a censura brincava com o jornal. O último censor, o tenente Taborda da Guarda Nacional Republicana, era um tapado, porque, hoje em dia, aquilo que eles cortavam, os períodos que eram cortados, eram coisas caricatas. Hoje diz-se tudo e ninguém leva a mal, mas naquela altura cortava-se tudo, principalmente, a nota do dia fei

ta pelo Melo Garrido ou pelo José António Moedas. Cheguei a fazer a primeira página três vezes num dia”, revela Carlos Rocha, atualmente com 81 anos. Domingos Gonçalves, antigo impressor e um dos funcionários mais novos do “DA” na altura, diz que perdeu a conta ao número de vezes em que percorreu os “100 a 200 metros” entre a gráfica, na rua Dr. Augusto Barreto, e o antigo governo civil, para “mostrar as provas” da edição seguinte, fazendo-o, muitas vezes, “quatro a cinco vezes por dia”.“Depois da paginação e das letras passadas para o papel as folhas eram tiradas muito devagarinho para não estragar e metíamo-las de lado para fazermos umas provas e íamos à tal censura. Eles liam aquilo tudo e havia coisas que sublinhavam a lápis ou a vermelho e isso significava que aquelas palavras tinham de ser retiradas de lá”, revive, hoje, aos 67 anos.

Na chegada à redação o “canudinho enrolado com muito cuidado” era entregue ao diretor e este avisava os colegas – “Meus amigos, esta palavra não pode ir” – que teriam de “substituir” ou “cortar” determinada palavra. “Depois fazia-se aí um malabarismo na frase que era para ela ter continuidade e sentido, mas aquela palavra saía porque era proibida publicar. Isto em todas as páginas”, afirma.

“Era o dito fascismo puro, quantas vezes é que não eram tiradas provas, o censor cortava duas ou três palavras e tínhamos de começar a impressão toda de novo. Nós já estávamos habituados à censura, até brincávamos: ‘hoje saímos à meia-noite ou à uma da manhã’. Chegou a acontecer cortarem poucas coisas, metermos a máquina a trabalhar e depois cortarem outras coisas e tudo o que tínhamos feito ir para o lixo”, descreve Francisco Victor, hoje com 77 anos.

 

“O ‘DA’ era um jornal de combate, muito político...” “Está o ‘Diário do Alentejo’ perfeitamente à vontade para deixar aqui expressas estas palavras. Porque, com as imposições e condicionalismos que foram impostos à Imprensa, durante sucessivos 48 anos, teve sempre maneira de expressar e até de marcar, embora por vezes sofrendo desagradáveis consequências a sua linha regionalista e independente”, escreveu-se na mesma edição.

A mudança de regime trouxe também ao “DA” uma nova visão geopolítica que, mantendo o cariz regional, passou a apresentar “ideias expansionistas”, com o intuito “de mostrar ao mundo que havia, afinal de contas, nesta zona um jornal que podia dar mais qualquer coisa”. Para o antigo chefe de paginação, o pós 25 de Abril permitiu que o periódico se revelasse “um jornal de combate”, “politicamente de esquerda” e que dava “gosto” aos trabalhadores fazerem parte dele.

“Começámos a ter o prazer de estar a fazer um jornal como devia ser, passámos a trabalhar com gosto, fazíamos duas horas diárias sem vencimento, mas o jornal tinha de ir para a rua porque dava-nos gosto tê-lo nas bancas, sem dúvida”, confessa Carlos Rocha.

Por ser um periódico “anti-situacionista”, conforme catalogado pelo serviço da censura em 1933, e assumidamente, “antissistema”, os antigos trabalhadores do “DA” dizem que era comum as “vigias” em vários locais da cidade pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE).

“Lembro-me de uma vez no 1.º de Maio, nós nunca trabalhávamos porque era o dia dos tipógrafos, irmos para um monte almoçar e depois estarmos no mercado e a PIDE andar ali de volta, porque sabiam que nós estávamos na rua e andavam a ver-nos. O José Moedas conhecia-os todos e então dizia-nos logo: ‘Olhem, eles andam aí’”, conta Francisco Victor, entre risos.

Histórias semelhantes tem também Carlos Rocha. Após o “golpe de estado” que derrubou o governo descobriu, através do cunhado que fez o transporte dos documentos oficiais da sede da PIDE, em Lisboa, para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que ia “ser preso no 1.º de Maio se não se dá o 25 de Abril”.

“[Percebi que] que ia ser preso porque em 1973, aqui na abadia junto da igreja de Santa Maria, houve uma reunião da chamada oposição ao Estado Novo no qual botei palavra. Ora, estavam lá os gajos da guarda republicana e da PIDE e aquilo ficou gravado”, revela.

Porém, não era só esse momento que estava registado no número 22 da rua António Maria Cardoso, sede da PIDE. Segundo mais tarde se soube, existiam “fotografias” de alguns funcionários do “DA” que estiveram presentes na cobertura, juntamente com o diretor José Moedas, “das eleições fantoches” no Alto Alentejo, sendo esse ato visto como suspeito.

“Posto isto, o que é que eu fiz? Nada, não vejo que tenha feito nada. Eu sei que eles sabiam que eu trabalhava no ‘DA’, que comprava todos os livros que não eram autorizados a ir para a prateleira, que botava palavra quando queria, mas a verdade é que por tudo e por nada prendiam-se pessoas”, assegura.

Cinquenta anos volvidos, os antigos funcionários do “DA” reconhecem os “avanços e recuos” que a Revolução dos Cravos trouxe a Portugal e, em particular, ao jornal regionalista, não descurand

o a importância que o mesmo teve no antes e depois da “liberdade”, assumindo “abertamente uma orientação democrática, condicente com os novo tempos”. “Vivi inteiramente esta mudança do 25 de Abril e desde aí vim vivendo os dias da Revolução, sempre evoluindo qualquer coisa”, conclui Domingos Gonçalves.

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