O “CLDS 4G Altamente Almodôvar” tem novamente no terreno o projeto “Uma Carta Por Um Sorriso” que une crianças e jovens do Agrupamento de Escolas de Almodôvar e idosos que vivem em montes isolados do concelho. O “Diário do Alentejo” acompanhou a entrega das primeiras cartas e experienciou o sentimento daqueles que, não se conhecendo, pegam no papel e na caneta para fazer a diferença na vida do outro.
Texto Ana Filipa Sousa de Sousa
O pó que as rodas da carrinha levantam pelas curvas e contracurvas da sinuosa serra do Caldeirão deixa antever o demorado e atípico caminho entre Almodôvar, sede de concelho, e os três montes isolados da freguesia de Gomes Aires. Durante todo o percurso não se encontra qualquer movimento, seja de carro ou a pé, e a estrada parece não ter fim.
Num dos cabeços, voltado para Este, a carrinha do programa do “CLDS 4G Altamente Almodôvar” começa a fazer-se soar com apitadelas de alarme, a fim de avisar Maria Aurora e o seu marido para a sua chegada.
“Ainda bem que apitaram, apesar de estar à vossa espera, é sempre melhor. Ontem esteve aqui uma carrinha, durante algum tempo, do centro de saúde, mas como ninguém chamou por mim, tive medo e não saí de casa”, conta Maria Aurora Ramos, aquando da chegada da equipa.
A mais de 30 minutos da vila, com grande parte do percurso feito sem alcatrão, Maria Aurora e o marido passam os seus dias “na horta, a tratar da casa e dos seus animais”. Dizem, alheios à distância, que não estão sozinhos porque têm vizinhos “já ali”, mas que estas visitas são importantes.
“Bem, dona Aurora, preparada para ler a primeira cartinha do seu amigo secreto?”, pergunta-lhe Catarina Dias, psicóloga e técnica do “CLDS 4G Altamente Almodôvar”.
Ainda que a medo pelo desconhecido que este projeto ainda lhe dá, ouve atenta o que a sua “amiga de 10 anos” lhe tem a dizer e apressa-se a responder. “Digam- -lhe que pus Internet há meia dúzia de dias”, graceja.
Maria Aurora Ramos, de 71 anos, é uma das utentes seniores do projeto “Uma Carta Por Um Sorriso”, dinamizado pelo “CLDS 4G Altamente Almodôvar”, e que une alunos do ensino básico da Escola EB 2,3/S Dr. João de Brito Camacho, em Almodôvar, e idosos que vivem em montes isolados do concelho num “mistério” em torno de cartas escritas à mão.
“A essência deste programa é a partir do momento em que ele inicia a magia acontece e tudo se torna especial e único. O facto de se criar uma amizade com um amigo, secreto desenvolve nos participantes a curiosidade, o interesse em querer saber cada vez mais sobre aquela pessoa, o criar na imaginação a imagem de como será o seu amigo, ao mesmo tempo que se partilha conhecimentos, habilidades, valores humanos, experiências e vivências”, começa por explicar ao “Diário do Alentejo” (“DA”) a coordenadora do “CLDS 4G Altamente Almodôvar”, Jéssica Inácio.
Ainda ligeiramente reticente, mas visivelmente feliz, Maria Aurora confessa que esta iniciativa “é sempre boa, porque temos sempre alguém com quem falar” e pelo desconhecido do que virá escrito na próxima carta.
A despedida é demorada, fala-se da “falta de uma estradinha melhor”, dos javalis e das “pocarinhas”, ou melhor, dos cogumelos, e só depois a equipa parte. Fica a promessa de voltar daqui a 15 dias, com outra carta e com mais tempo para “pôr a conversa em dia”.
Maria Aurora Ramos Tem 71 anos e vive com o marido num monte a 30 minutos de Almodôvar
Umas colinas acima, o sol, que outrora se fazia notar, é escondido por umas enormes nuvens brancas que enrijecem o frio. Os cães de Maria Raimundo dão o sinal de que alguém se está a aproximar, mas depressa se voltam a deitar ao perceber que são caras conhecidas.
“Não sei se a dona Maria já está levantada. Avisou-nos logo para virmos só depois das 10:00 horas porque gosta de ficar deitada na cama”, diz Jéssica.
Ao fim de vários chamamentos, Maria Raimundo, de 81 anos, aparece de dentro de uma das suas casas. Diz que acordou “arreliada” com o facto de os telemóveis estarem todos desligados e não conseguir falar com ninguém e que está com pressa.
“Digam-me: são as cartas? Têm de me ler que eu não sei, e, escrever, só o meu nome”, riposta ao chegar junto da equipa. “Aquela escola ali chegou a ter 40 alunos e duas professoras, mas quando foi isso eu já não tinha idade para lá ir. Agora também não tem ninguém”, completa, enquanto aponta para um grande edifício ao fundo da estrada.
Ouve, atenta, a carta que recebeu. Hoje é dia de se apresentar fisicamente e descrever os seus gostos pessoais. “Não escreva que eu tenho este gorro na cabeça, mas pode dizer que tenho cinco gatos e dois cães e que já não tenho horta por causa da seca”, salienta.
A equipa, composta por Catarina Dias, Jéssica Inácio e a assistente social Ana Fernandes, regressará daqui a duas semanas para lhe entregar a resposta do seu amigo secreto. Por enquanto, Maria Raimundo ficará entretida “a arranjar um porco” que matou no último fim de semana.
Para Jéssica Inácio, o projeto, para este público-alvo, tem também esta componente: o de combater o isolamento e a solidão daqueles que vivem geograficamente e socialmente isolados e de promover a autoestima e a saúde, fazendo com que os idosos se sintam úteis por contar as suas experiências de vida e ativos, por exemplo, praticando a escrita.
“Dona Maria assine lá aqui com o seu nome. Você consegue”, pede a psicóloga Catarina Dias. “Vê? Escreveu sem precisar da minha ajuda”, diz de seguida.
Ao contrário da despedida anterior, Maria Raimundo não se prolonga. Está à espera que a nora lhe telefone e por isso não se quer distrair. “Da próxima vez que vierem cá entregar a carta tragam-me o número de telefone que pedi, por favor”, diz, enquanto acena.
Maria Raimundo Com 81 anos, e sozinha no seu monte, já esteve na casa de um dos filhos, mas quis regressar
A última paragem e, consequentemente, a última carta a ser entregue e escrita, é no Monte da Alcaria Alta, na casa de Lucília Coelho, de 69 anos, umas curvas abaixo. Entre rendas, agulhas e caricas de metal recebe a equipa do CLDS numa das suas pequenas salas, enquanto costura uma carteira.
O sol voltou a espreitar e é junto às suas amendoeiras em flor que ouve o que o seu amigo secreto lhe diz. Apesar da sua idade, à semelhança da maioria dos participantes seniores do projeto, não sabe ler nem escrever e pede ajuda.
“Então vamos dizer ao seu amigo que vive com o seu irmão, tem quatro cães, uma bela horta com couves, laranjeiras e amendoeiras e que gosta muito de fazer renda?”, pergunta Catarina Dias. Lucília abana a cabeça de forma afirmativa e apressa-se a apresentar os seus dois companheiros mais pequenos: a Borboleta e o Snoopy.
No total, a edição deste ano do projeto “Uma Carta Por Um Sorriso” conta com 36 correspondentes: 18 pares de idosos e crianças.
Lucília Coelho Tem 69 anos e vive com o irmão. Faz carteiras e mantas de renda para passar o tempo
UM AMIGO À DISTÂNCIA
A coordenadora de 26 anos, Jéssica Inácio, acredita que o segredo para o sucesso do programa está amplamente ligado à particularidade de unir duas gerações distantes e de as pôr em contacto.
“Nós, no ano passado, tivemos alunos que não sabiam que os avós tinham começado a trabalhar no campo com sete ou oito anos e que se interessaram pela vida deles depois de trocar cartas com os seus amigos secretos. [Esta iniciativa permite isso,] que as crianças e jovens possam contactar com outras realidades, outras histórias de vida e perceberem as dificuldades da vida antigamente, compreenderem as diferenças do antes e do agora e o quão importante é sermos gratos pelas oportunidades que temos hoje”, refere.
E continua: “Ao mesmo tempo para os seniores dos montes isolados, esta experiência é muito gratificante, pela companhia que estas crianças e jovens lhes fazem através das cartas, pela valorização que lhes é dada e por poderem simplesmente partilhar um pouco das suas vidas, pois com tão pouco fazem a diferença na vida destas pessoas que se sentem tão sós”.
À tarde, já na escola, o burburinho que se faz sentir um pouco por todo o lado diz respeito ao simulacro de incêndio programado para dali a instantes. Porém, para a turma do 5.º B a excitação é outra. “Vamos receber as cartas?”, pergunta um, enquanto corre para a sala. “Trouxeram as cartas?”, questiona outro, que vinha mais atrás e não ouviu a resposta.
Os sorrisos aparecem à medida que Jéssica e Catarina entregam cautelosamente as cartas aos destinatários. As crianças, que aguardaram ansiosamente nas últimas semanas, leem-nas vezes sem conta e comentam com os colegas da mesa do lado.
“Olha, o meu amigo secreto também tem família na Aldeia de Fernandes”, comenta um. “Oh! E a minha amiga disse-me para tomar um leitinho com cascas de limão e mel para ficar melhor da constipação”, revela outro. “Aliás, eu já andei nas vossas fotografias do Facebook a tentar descobrir quem era o meu amigo secreto e acho que já sei”, brinca outro.

É notória a satisfação. Quando questionados quanto ao sentimento que têm ao receber uma carta do seu amigo secreto a resposta é unânime: “Feliz!”
Gonçalo Silvestre, de 11 anos, e Maria Inês Varela, de 10, acreditam que a aprendizagem é simultânea entre eles e os seus amigos secretos e sabem que estão a contribuir para a felicidade e para a companhia de alguém que está mais só.
“Acho que as cartas são importantes, pois muitos velhotes não têm companhia durante muito tempo e nós vamos aprender, de certeza, alguma coisa com eles e criar muitos laços”, diz o rapaz. A colega completa: “Nós aprendemos com eles e eles aprendem connosco e assim percebemos como é que eles se sentem”.
Alunos As cartas dos mais novos são escritas, consoante o tema proposto, nas aulas de escrita criativa
O REENCONTRO
Este é o segundo ano em que o “CLDS 4G Altamente Almodôvar” promove o “Uma Carta Por Um Sorriso”, depois do ano passado ter sido “uma grande surpresa para todos”, com um impacto enorme na vida dos envolvidos.
“No dia do encontro final, no ano passado, a alegria, os abraços, os sorrisos, as lágrimas de felicidade, a cumplicidade era tanta que demos por nós a pensar: missão cumprida”. Houve muitos alunos que, por exemplo, trocaram os números de telemóvel com os seniores para continuarem a falar, mantendo assim a amizade que criaram através das cartas. Por isso, foi sem dúvida uma experiência que ninguém irá esquecer e que ficou no coração de todos”, comenta Jéssica Inácio.
Neste ano a equipa quer manter a tradição e permitir o encontro físico entre os amigos secretos, contudo, ainda está a definir quais serão os moldes. “Nós gostaríamos de fazer como no ano passado e levar os nossos seniores até à escola, mas também achamos que seria interessante trazer as crianças até ao campo e contactar de perto com eles”, revela.
Gonçalo Silvestre interrompe. “No final da troca de cartas quero conhecer pessoalmente o meu amigo secreto e já agora saber quem é que ele tem na família lá na Aldeia de Fernandes”, relembra, entre risos.
A iniciativa está novamente a andar no terreno e a conquistar o interesse de miúdos e graúdos. Ainda não foi possível chegar a todos os idosos que vivem em montes isolados no concelho, face à sua distância geográfica e ao próprio desconhecimento de habitantes em determinadas zonas. Contudo, essa será a próxima incumbência.
Por agora, enquanto os mais velhos aguardam pela chegada da carrinha, salpicada de pó da estrada, com as próximas cartas, os mais novos têm a missão de imaginar e escrever que profissões e sonhos esperam para o futuro.
Assim, este torna-se um projeto que liga, em jeitos antagónicos, duas formas de ver a vida e de se relacionar com ela. De um lado, a inocência do desconhecido do que será o futuro, do outro a experiência e a certeza do que foi o passado e do que é o presente.