O Ecossistema Cultural e Artístico do Baixo Alentejo tem desenvolvido um projeto destinado aos jovens que visa valorizar a cultura do Baixo Alentejo e dar-lhes capacidade para olharem a arte de maneira diferente e crítica.
Texto Ana Filipa Sousa de Sousa
O recente projeto “Geração Futurama”, desenvolvido pelo Ecossistema Cultural e Artístico do Baixo Alentejo – Futurama, tem marcado presença quinzenalmente, desde o início do mês passado, nas grandes salas brancas e luminosas da Santa Casa da Misericórdia de Beja. Olhar a arte e o mundo com novas ferramentas e ensinar os jovens a valorizar culturalmente o sítio onde vivem são os motes que aos sábados, em modo presencial ou online, unem os sete participantes e o mediador Tiago Cadete durante duas horas a “conversar, rir, debater, escrever, construir imagens, gestos, performances ou publicações que implicam o corpo e a mente”. As criações assentam na contemporaneidade e na “troca de referências que proporciona um alargamento de horizontes na área artística”, permitindo adicionar “ao seu mundo o universo de outros”.
Ao “Diário do Alentejo” (“DA”), o artista Tiago Cadete explica que “as atividades desenvolvidas nas sessões partem de desafios práticos onde os participantes devem desenvolver pequenas ações e/ou objetos que posteriormente são analisados pelo grupo e que se tornam o corpo de trabalho do Futurama”.
“Sabendo da dispersão geográfica e populacional do Baixo Alentejo, e uma vez que se pretendia desenvolver um coletivo representativo de diferentes localidades, considerámos que um modelo misto entre o presencial e o online permite uma acessibilidade maior. As sessões presenciais ganharam entretanto um maior protagonismo em relação ao previsto, pois percebemos que todos nós estamos um pouco cansados do formato digital e que a experiência artística e do encontro é muito mais valiosa e produtiva cara a cara, corpo a corpo”, esclarece o diretor artístico do Futurama, John Romão. Assim, nas sessões online é dado destaque ao debate e aos “processos e metodologias de criação da imagem”, enquanto presencialmente existe uma componente mais prática, onde são desenvolvidas e abordadas “ações performativas que privilegiam o corpo como meio expressivo”.
Este grupo de trabalho, composto por jovens entre os 15 e os 25 anos residentes no Baixo Alentejo, concluirá a sua experiência artística a 18 de setembro com uma apresentação pública na 1.ª edição do Festival Futurama. Aqui mostrarão a necessidade de promover, na região e junto desta faixa etária, atividades de formação, reflexão e criação com enfoque no desenvolvimento das habilidades críticas e criativas para “enfrentar o presente e o futuro”.
O mediador de 39 anos anseia que este projeto traga à comunidade jovem “uma autonomia na criação artística e que apesar de estarem distantes dos polos culturais, descubram meios de tornarem o Baixo Alentejo um centro cultural”, com capacidade de pensamento e criação independentemente de fatores externos.
“A CULTURA BAIXO-ALENTEJANA É DE UMA RIQUEZA INIGUALÁVEL”
O Ecossistema Cultural e Artístico do Baixo Alentejo – Futurama trabalha com o propósito de implementar em Beja, Castro Verde, Mértola, Serpa e Vidigueira “um ecossistema cultural e artístico, transdisciplinar, colaborativo e transfronteiriço”, através da partilha de atividades entre municípios parceiros. O “Geração Futurama” é mais um dos projetos que visa colocar em cima da mesa a educação, as artes, a criação contemporânea e a tradição, os espaços culturais, patrimoniais e de ensino em volta da descentralização cultural.
Ainda que para John Romão a cultura baixo-alentejana seja “de uma riqueza inigualável, assente na sua história multicultural e com uma grande âncora nas tradições arraigadas à terra”, é necessário dar-lhe um futuro promissor. E assente em novos diálogos, perspetivas e desafios que “valorizam o que existe e o posicionam em novos patamares representativos, inclusivos e criativos”, afirma ao “DA”.
Assim, além do fomento de novos ideias artísticos o Futurama espera corrigir o desequilíbrio do acesso cultural, promover a cidadania artística, a igualdade e inclusão, com atividades artísticas que premeiam a interculturalidade e a defesa dos direitos humanos, para responder à discriminação negativa que também o Baixo Alentejo enfrenta, e investir na promoção nacional e internacional da região, através de ações transfronteiriças, nomeadamente na relação com Espanha.
O QUE É O FUTURAMA?
O Ecossistema Cultural e Artístico do Baixo Alentejo – Futurama é um projeto cultural e independente, sem fins lucrativos, sediado em Beja. É composto por 10 colaboradores, 20 participantes nas ações de educação não formal, e cerca de 70 alunos de escolas básicas e secundárias que participam nas atividades. Tem enfoque nas artes performativas, visuais, música, ofícios regionais, arquitetura e cinema e é dirigido a um público intergeracional, com especial atenção ao público jovem.