Desde o passado dia 7 de julho que a Rede Intermunicipal de Bibliotecas do Baixo Alentejo (Ribba) proporciona, aos seus utilizadores, o acesso gratuito a mais de sete mil jornais e revistas online. Também por estes dias, a 21, cumpre-se o primeiro ano de funcionamento do catálogo coletivo das bibliotecas, onde é possível o acesso ao acervo de cada uma das 13 bibliotecas da rede.
Em entrevista ao “Diário do Alentejo”, a coordenadora da Ribba e da Biblioteca Municipal de Mértola desde novembro passado, Fernanda Mestre Nobre, 52 anos, olha para o papel das bibliotecas, o universo do livro e da leitura no Baixo Alentejo.
Texto Marco Monteiro Cândido
A Ribba nasceu formalmente em 2018. No entanto, a rede foi o resultado do que o grupo de trabalho das bibliotecas municipais do Baixo Alentejo já desenvolvia desde 2012, nomeadamente os bibliotecários. Como foi esse percurso?
Foi um percurso natural de profissionais empenhados na procura de soluções que potenciem em ampliem os serviços da Biblioteca. É um caminho, por vezes sinuoso, mas muito gratificante. É um caminhar na direção dos utilizadores reais e potenciais na certeza de que os serviços que prestamos contribuem para o seu enriquecimento. Desde a sua criação, em 2012, o grupo de trabalho das bibliotecas municipais tem vindo a criar instrumentos de trabalho partilhados, com vista a um funcionamento concertado, mais eficaz e eficiente, dos serviços prestados pelas diferentes bibliotecas. A par deste trabalho, há que realçar a importância que as reuniões mensais assumem para todos os intervenientes, enquanto espaço de debate e de partilha de experiências e preocupações, com reflexos na quebra do isolamento profissional e que se traduzem na melhoria dos serviços prestados à comunidade.
Ao fim de seis anos, qual o balanço da constituição Ribba? Certamente haverá vantagens e, talvez, algumas desvantagens, do funcionamento em rede…
A criação da Ribba constitui um passo importante, para os profissionais das bibliotecas do distrito de Beja, e que se reflete positivamente nos serviços prestados à comunidade. Há uma ação concertada, um planeamento estratégico onde têm sido desenvolvidas ações que permitem aos serviços de biblioteca adaptar-se a realidades de carência assim como às necessidades de serviços de biblioteca e de informação sentidas ou percebidas junto das pessoas, comunidades e parceiros do território abrangido. Neste exercício tivemos em conta dois universos de implementação, o de cada biblioteca, na sua relação com o seu território específico e o da Ribba, numa perspectiva de coesão, desenvolvimento e equidade territorial do Baixo Alentejo. Foram desenvolvidas linhas de trabalho: compromisso interno de partilha de informação; de formação e atualização profissional; de concertação de estratégias… tudo numa perspetiva de melhoria dos serviços a prestar à comunidade.
Ao longo dos anos, quais têm sido os principais desafios, na região, face à relação dos leitores com o livro e a leitura?
Penso que, na região, há dois fatores importantíssimos que condicionam esta relação de proximidade entre leitores e livros e que constituem em si mesmos um desafio. Desde logo a perda de população. No Alentejo assistimos década após década a um número decrescente de pessoas. Das que ainda residem são, em grande percentagem, idosos; assiste-se também a uma saída significativa de jovens que procuram outras paragens para prosseguir estudos e terminados esses estudos são poucos os que no seu Alentejo se conseguem fixar profissionalmente. Ora, não havendo capital humano, há necessariamente decréscimo de leitores. Como chegar, então, eficazmente a um segmento da população com características tão particulares? Embora haja, da parte das bibliotecas, ações de descentralização dos serviços biblioteconómicos, torna-se difícil. O segundo fator prende-se com o surgimento das novas tecnologias. Naturalmente que o Alentejo não é o único ponto do mundo onde as bibliotecas sentem esse constrangimento. Se de constrangimento se pode falar, já que se por um lado potencia o afastamento do bem maior de uma biblioteca – o livro – simultaneamente conduz-nos a uma fruição cultural de maior amplitude e diversidade dentro de uma biblioteca.
As bibliotecas municipais, hoje em dia e cada vez mais, terão que se reinventar a cada momento. Como é ser uma biblioteca municipal em pleno século XXI?
É aceitar a multiplicidade de suportes como um complemento no acervo documental privilegiado – o livro. É ter consciência que os utilizadores – reais e potenciais – na procura de conteúdos que lhes interessam encontram diferentes formatos (livro, revistas, sites…). É perceber que temos, e devemos, que nos adaptar aos tempos que correm para darmos uma resposta cabal a quem nos procura. É termos a capacidade de antecipar necessidades, é criar espaços convidativos para o desenvolvimento do hábito da leitura nos seus múltiplos suportes. É, neste espaço privilegiado para a leitura, dar lugar a outras atividades que interessem aos seus munícipes. Em suma a biblioteca municipal do século XXI quer-se um espaço capaz de responder adequadamente e que cumpra a sua função social independentemente dos avanços tecnológicos. A democratização do acesso à cultura e à informação continua a passar pelas bibliotecas públicas, não apenas pela especificidade dos serviços que este equipamento cultural presta, mas também pela gratuitidade dos mesmos.
Os aspetos concorrenciais são muito maiores, principalmente com as novas tecnologias. Estas também podem ser aliadas, abrindo as bibliotecas ao exterior?
Sem dúvida. A Biblioteca de hoje não é um lugar onde nos deslocamos e “apenas” se disponibilizam ou requisitam livros e se estimula a sua leitura. A Biblioteca de hoje acolhe diferentes singularidades. Cada sujeito tem o seu gosto, percorre o seu próprio caminho dentro ou fora da sua comunidade. Há que abrir horizontes e potenciar novas abordagens para que a Biblioteca seja vista – aos olhos de cada indivíduo – como uma fonte de conhecimento disponível. A Biblioteca de hoje é uma porta aberta para o mundo e no mundo. A título de exemplo, o facto de o seu catálogo bibliográfico – por surgimento e consequente evolução das novas tecnologias – estar disponível na Internet permite que um indivíduo que reside “no dobrar da esquina” e um outro indivíduo que vive no Japão possam em simultâneo saber se o documento X está disponível na biblioteca Y.
De que forma a pandemia trouxe dificuldades ou, por outro lado, permitiu novas soluções no papel das bibliotecas?
Como é do conhecimento de todos a pandemia veio trazer vários constrangimentos a diferentes níveis e, naturalmente, as bibliotecas não foram exceção. Se, por um lado, as pessoas deixaram de fazer a sua vida normal – onde se incluía ir à biblioteca requisitar um livro para leitura domiciliária, ler um jornal no espaço da biblioteca, visionar um filme, ouvir uma música ou assistir a uma tertúlia – por outro, sentiram que a sua biblioteca podia ser uma mais-valia no sentido em que foi “aquele amigo” que não os fez sentir sós. As bibliotecas adaptaram-se às necessidades e foram até ao seu utilizador/leitor, entregaram porta-a-porta livros, filmes, CD´s da sua preferência … as bibliotecas foram, neste momento difícil da vida das pessoas, um elo importante no combate à solidão.
Também por estes dias (no dia 21 de julho), assinala-se um ano do catálogo coletivo das bibliotecas. Que balanço faz a Ribba deste primeiro ano de funcionamento?
O catálogo coletivo é uma ferramenta extraordinária que beneficia os utilizadores das bibliotecas e que auxilia em muito os seus profissionais. O agregador de catálogos veio permitir melhor, mais rápida e mais eficaz capacidade de resposta e, obviamente, o balanço é muito positivo. Por exemplo, um utilizador desloca-se à sua biblioteca para requisitar determinado documento. A sua biblioteca não o possui. O colaborador/funcionário através do link bibliotecasbaixoalentejo.pt faz uma breve pesquisa e imediatamente sabe qual ou quais as bibliotecas do distrito que possuem esse título. Através do catálogo coletivo, rapidamente, o colaborador da biblioteca que está perante o utilizador faz o pedido à outra biblioteca, acontecendo o que designamos como o empréstimo interbibliotecas. Por via da cooperação existente entre as bibliotecas que constituem a Ribba, passados dois ou três dias o utilizador será informado que o livro que pretende – e que foi solicitado a outra biblioteca – já se encontra disponível na sua biblioteca. Noutro exemplo, um utilizador autónomo pode fazer a sua pesquisa e sem “sair de casa” ficar a saber se a sua biblioteca tem disponível o que procura: se existe na sua biblioteca, desloca-se lá e requisita para leitura domiciliária; se não existe na sua biblioteca, pode telefonar e comunicar o que precisa e que sabe que está disponível na biblioteca X. O colaborador com quem falou aciona os procedimentos para que o livro lhe seja enviado.
O catálogo tem permitido uma maior aproximação dos leitores às bibliotecas?
Não há muita gente que use este serviço/catálogo autonomamente, no entanto já há alguns utilizadores que conhecem a sua existência, que chegam à biblioteca e dizem “veja lá se tem… e se não tiver pode pedir a outra biblioteca?” Podemos concluir, então, que alguns utilizadores sabem que haverá uma resposta positiva e por isso, quando desejam ou precisam de algum documento não hesitam em nos procurar.
Como vê, principalmente no Baixo Alentejo, a relação com a leitura e o livro nos próximos anos? E que papel terão as bibliotecas, e a Ribba, nesse futuro?
O trabalho em rede constitui por si só uma mais-valia e a existência da Ribba já demonstrou encurtar distâncias, transpor barreiras geográficas e até mesmo, no quadro financeiro, trazer benefícios ao coletivo. As bibliotecas do Baixo Alentejo e a Ribba terão que continuar a estar atentas não só às especificidades do seu território, mas também ao que se passa a nível global. Tem sido este o foco e continuará a ser. Dentro das particularidades do seu capital humano, que já aqui falei, é importantíssimo combater o isolamento social e o livro é sem dúvida um bem precioso nessa luta. Encurtar distâncias e aproximar é essencial. Demonstrar que – dos zero aos cem anos – o livro é vital para o desenvolvimento humano. Encontrar soluções viáveis e eficazes para as diferentes problemáticas que possam surgir.
SETE MIL JORNAIS E REVISTAS COM ACESSO GRATUITO
Recentemente foi disponibilizado o PressReader – plataforma digital de jornais e revistas online. No que consiste este serviço?
Este serviço disponibiliza, de uma forma absolutamente gratuita, o acesso digital a jornais e revistas. Os utilizadores das bibliotecas municipais de Aljustrel, Almodôvar, Alvito, barrancos, Beja, Castro verde, Cuba, Mértola, Moura, Ourique, Serpa e Vidigueira poderão aceder online a uma plataforma digital inovadora que disponibiliza o acesso direto e integral a mais de sete mil jornais e revistas de entre 120 países, em mais de 60 línguas , permitindo uma experiência de leitura envolvente através de uma plataforma com várias funcionalidades: leitura em voz alta; tradução de textos para português ou outras línguas; cópia e partilha de artigos, entre outras. refira-se que esta plataforma está organizada por temas e que o utilizador facilmente percebe o que há disponível na sua área de interesse,
Como é que os interessados podem usufruir do mesmo e que vantagens lhes trará?
Patra usufruir da plataforma digital PressReader, basta que esteja inscrito numa das bibliotecas referidas. Na sua biblioteca ser-lhe-á atribuido um número de utilizador e uma palavra-passe. Estas credenciais permitem-lhe o acesso ao catálogo bibliográfico e dentro deste - fazendo o seu login - a possibilidade de aceder aos jornais e revistas disponibilizadas pelo PressReader. este acesso pode ser feito através de um telemóvel, de um tablet ou de um computador. Qualquer que seja o lugar onde está desde que tenha acesso á Internet e as credenciais da sua biblioteca terá aceso integral e gratuito a mais de 7000 jornais e revistas.