Diário do Alentejo

“Ao recebermos alguns autores somos notícia no mundo inteiro”

31 de maio 2022 - 12:20
Paulo Monteiro, diretor do Festival de Banda Desenhada de Beja, em entrevista ao “Diário do Alentejo”
Foto | José SerranoFoto | José Serrano

O Festival de Banda Desenhada de Beja regressou à cidade, desde 27 de maio até 12 de junho. O certame, organizado pela Câmara Municipal de Beja, contará, para além das 15 exposições patentes ao público, e cujos autores estarão presentes no evento, com a apresentação de projetos, o lançamento de livros, conferências, oficinas, revisão de portefólios, sessões de autógrafos e com os já famosos concertos desenhados. Terá ainda ao dispor dos visitantes o Mercado do Livro, onde estarão presentes mais de 70 editores. Tudo isto na Casa da Cultura de Beja, onde são esperadas, nesta 17.ª edição do festival, verdadeiras estrelas da nona arte, como Jean-Louis Tripp, Régis Loisel e a dupla Altarriba & Keko.

 

Texto José Serrano 

O Festival de Banda Desenhada de Beja 2022 continuará a ser, tal como o costuma intitular, um festival de BD diferente de todos os outros?

Boa parte da alma deste festival tem a ver com o contacto muito próximo que existe entre os leitores e os autores, coisa que não se passa na maior parte dos festivais de BD. Toda a programação é pensada em incentivar esse contacto, essa proximidade, que acaba por marcar a diferença. Podermo-nos sentar à mesa e beber uma cerveja com o nosso autor favorito é um dos motivos que mais atraem as pessoas a visitar-nos, essa atmosfera descontraída e de proximidade. É um festival muito acarinhado e muito “encorpado” – o único festival de BD maior que o nosso, no país, é o da Amadora.

 

Apreciam, também, os próprios autores, essa proximidade com o público?

Gostam muito dessa experiência, pois o que geralmente acontece, nos festivais de BD, é as organizações dirigirem os autores para as conversas e para os autógrafos e depois levam-nos a passear, a jantar fora. Nós pedimos aos autores uma hora e meia de autógrafos e 30 a 45 minutos de conversa, num fim de semana inteiro. O que lhes permite passear livremente, de uma forma muito descontraída, pelo festival e conversar, com tempo, com as pessoas que os admiram. E eles acham isso espetacular, porque não estão habituados e porque a gigantesca maioria dos autores gosta genuinamente de falar com as pessoas que leem as suas obras.

 

Essa descontração que o festival permite aos autores potencia a conversa, também, entre uns e outros?

Claro, os autores, alguns dos mais famosos do mundo – que passam muitos por cá – partilham o prazer de estar à conversa com autores ainda desconhecidos. Falam do seu trabalho, das suas perspetivas, das suas angústias, das suas alegrias, dos seus projetos. Isto permite que se crie um ambiente fantástico – há imensos projetos que têm surgido dessas conversas informais, entre autores.

 

Os próprios horários do festival são mais invulgares, mais dados à descontração…

O Festival de Banda Desenhada de Angoulême, em França, que é o maior do mundo, encerra às sete da tarde. Nós promovemos a programação pela noite dentro, com os concertos desenhados, e fazemos do festival um motivo para haver uma grande festa, em torno da banda desenhada. Uma festa com exposições fantásticas, com música e desenho ao vivo, com “comes e bebes”, confraternizando entre amigos – a vida é isto.

 

Quão conhecido já é o festival?

Atualmente todos os autores conhecem o Festival de Banda Desenhada de Beja. Mesmo os mais conceituados – que têm agendas verdadeiramente loucas, com muita coisa para fazer, no mundo inteiro – todos falam do festival, pelos melhores motivos. Ainda há duas semanas o britânico Paul Gravett, considerado o crítico mais importante de BD, que escreve para os jornais e revistas mais conceituados do planeta, publicou um artigo sobre o festival, referindo-o como um dos mais interessantes da Europa. Estas declarações são, para nós, maravilhosas – ele é lido por muitos milhares de pessoas.

 

Esse reconhecimento faz deste festival um evento verdadeiramente internacional?

O festival tem dois níveis de visita. As pessoas que vem cá, presencialmente, que andam sempre à volta dos nove mil visitantes – o que é muita gente, na cidade –, a maioria do concelho e dos concelhos limítrofes, mas também de todo o país, de Espanha, de França, de Itália, que vêm propositadamente ao festival. Para além destas pessoas há depois muitos outros milhares que o conhecem através dos media, das fotografias, dos artigos que o referem em sites especializados, por essa Europa fora. E não só, pois há alguns autores que recebemos, cuja vinda a Beja é notícia no mundo inteiro. Já saíram notícias, sobre o Festival de Banda Desenhada de Beja, no Japão. Imagino que dissessem bem…

 

É a interioridade de Beja um trunfo acrescido para esta atração de visitantes, ao festival?

A ruralidade, muito própria da nossa cidade, é fundamental, nós vestimos esse “casaco”. Mas também é importante mostrar uma faceta moderna e o festival traz essa imagem de contemporaneidade. Há essa complementaridade. Por variadíssimas vezes me dizem que Beja, uma cidade pequena, afastada dos grandes centros urbanos, que tinha tudo para ser uma cidade periférica, se tornou de repente um centro de uma arte, neste caso a banda desenhada. Claro que isto não aparece por acaso, há mais de quarto de século, que trabalhamos para que isto suceda – o Toupeira, surgido em 1996, a funcionar na Bedeteca de Beja, é o ateliê de banda desenhada mais antigo do país. Neste momento há, na cidade, mais de 30 autores de banda desenhada a trabalhar – é muita gente. E depois, Beja é uma cidade muito bonita, muito gentil, as pessoas sentem-se bem em vir aqui – e há que potenciar estas características, para fazer com que Beja tenha uma posição mais efetiva, a todos os níveis.

 

Esse reconhecimento tem reflexos para Beja, a nível turístico?

Como visitante de vários festivais, sei da dificuldade que é sair do festival para ir visitar uma cidade, porque quem gosta muito de BD não quer sair dali. Mas depois volta-se à cidade, mais tarde. Isso acontece muito aqui, com visitantes nacionais e estrangeiros que regressam, após o festival, para visitar a cidade e a região.

 

Alguns regressam mesmo para ficar, é certo?

Começa agora aqui a dar-se um fenómeno interessante, que já aconteceu em outras cidades da Europa – algumas pessoas que gostam de banda desenhada estão a mudar-se para Beja, autores, professores, diretores de arte e editores, nacionais e estrangeiros, alguns sobejamente conhecidos, à procura de casa, aqui. Ao mesmo tempo há muitos autores a manifestarem vontade de fazer residências artísticas, em Beja. O trabalho desenvolvido começa agora a despoletar este tipo de dimensão, o que é espetacular.

 

Apresenta-se a cidade, também, com musa inspiradora para alguns autores?

O francês Edmond Baudoin, um dos autores mais conceituados e incríveis do mundo, uma referência incontornável na arte, já várias vezes manifestou vontade de vir para Beja e de fazer uma história passada na cidade…

 

Poderá a dimensão desse interesse por Beja, na área da BD, crescer ainda mais?

Se nós conseguirmos manter o nível de interesse do festival, a bedeteca a funcionar, o Toupeira, abrir o Museu da Banda Desenhada de Beja, há ainda a possibilidade de trabalharmos, com o Instituto Politécnico de Beja, numa pós-graduação em banda desenhada – se tivermos todas estas valências a funcionar, podemos criar aqui um núcleo, à volta da BD, que pode potenciar, em muito, a cidade.

 

Para quando será expectável que os visitantes que venham ao Festival de Banda Desenhada de Beja possam também visitar o primeiro museu, em Portugal, dedicado à BD?

O Museu de Banda Desenhada de Beja, que se vai localizar no centro histórico, naquela que é conhecida como a Rua das Lojas, irá funcionar num edifício do final do seculo XIX e terá de ser adaptado às suas novas funções – esse projeto de arquitetura já está concluído. Agora terá de seguir para a engenharia, só depois a Câmara de Beja o candidatará a fundos europeus, imagino eu. Vai demorar ainda algum tempo…

 

Ficaria contente se o museu se inaugurasse quando?

Amanhã.

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