Diário do Alentejo

Beja: Novo horário da Casa da Cultura provoca polémica

13 de julho 2020 - 21:00

A Câmara Municipal de Beja decretou recentemente um novo horário de funcionamento para a Casa da Cultura da cidade, espoletando uma onda de protesto entre os utilizadores do espaço, que acolhe a realização de ateliers permanentes há mais de 20 anos. O grupo, composto também por monitores e alunos, formalizou a posição num abaixo-assinado que entregou no município no final da semana passada, em que contesta algumas decisões. Agora, esperam uma resposta atempada da autarquia, que é o mesmo que dizer “que o assunto não se dilua nas férias!”

 

Texto Júlia Serrão

 

A decisão camarária de encerrar a Casa da Cultura de Beja às 17:30 horas, desta forma inviabilizando muitos ateliers em horário pós-laboral, surpreendeu os utilizadores do espaço onde, há mais de 20 anos, se realizam diversas oficinas permanentes. Na história, ficam duas décadas de atividade plena, sem qualquer interrupção, nem mesmo no verão, “altura em que a oferta na cidade é quase nula, e em que estes ateliês se revelam ainda mais importantes”, pode ler-se no texto do abaixo-assinado entregue na Câmara, a contestar a deliberação. Com esta alteração do horário de funcionamento, dizem os lesados, é impossível iniciar e dar continuidade aos ateliers em regime pós-laboral, que não são possíveis de acontecer noutro horário.

A petição, que impugna ainda outras decisões do município e/ou da divisão cultural, termina pedindo ao presidente e vereadores a abertura da Casa da Cultura em horário pós-laboral no mês de julho.

E que possibilitem “o acesso ao espaço em agosto, sempre com a coordenação do diretor da Casa da Cultura, numa relação de confiança que existe há muitos anos”. Termina lembrando que os ateliers são muito importantes para a cidade: “É fundamental que se mantenha este tipo de ofertas culturais, que contribui decisivamente para a qualidade de vida dos munícipes. O Alentejo, e o nosso concelho, têm um grave problema de desertificação, nomeadamente entre os jovens. Tudo o que podermos fazer para fixar as pessoas é pouco”.

 

“NÃO HOUVE DIÁLOGO” Simão Matos é um dos promotores do abaixo-assinado. Conta que as indicações da Câmara Municipal para o funcionamento da Casa da Cultura foram recentes. “Nós tivemos conhecimento da situação de encerramento dos ateliers há sensivelmente duas semanas, mas não sabemos se a decisão política também já estava tomada há mais tempo”.

 

O professor de História na Escola Mário Beirão, em Beja, é um dos utentes do atelier de Banda Desenhada e Ilustração da Casa da Cultura, a funcionar às quartas-feiras, entre as 21:00 e as 23:00 horas. Confirma que com este novo horário muitos ateliers deixarão de acontecer, e chama a atenção para o facto de os utilizadores não terem sido avisados para a mudança. “O encerramento dos ateliers foi feito sem sequer se ouvir os participantes, feita uma proposta alternativa, ou pensar em como se poderia levar a cabo o processo mantendo algumas coisas abertas. Por exemplo, o espaço podia ter um horário mais flexível, e fechava na altura em que os ateliers não estão a funcionar”.

Como não houve diálogo e o processo seguiu o seu curso, “sem qualquer tipo de justificação”, o abaixo-assinado vai no sentido de “solicitar à Câmara explicações, tanto às pessoas que utilizam a Casa como a toda a cidade”. Afirma: “Nós percebemos que, agora, com a pandemia, as coisas alteram-se. Mas alterar não quer dizer que se tenha que fechar tudo, e que se aproveite a situação para pôr em prática coisas que, se calhar, já estavam pensadas há muito tempo.”

 

O utilizador da Casa da Cultura explica que, embora os ateliers possam ter poucos alunos, acabam por ser de grande importância, porque vêm dar uma dinâmica na parte cultural, que a cidade não pode dar de outra forma. “Não há muitas outras alternativas. Beja é uma cidade pequena, e, por isso, em termos culturais ainda mais pequena é”. Por outro lado, acrescenta que a decisão vem afetar “alguns formadores cuja única fonte de rendimento eram as aulas que ali davam em regime pós-laboral”

 

“A CULTURA É PARA TODA A GENTE”

“Pode-se entender o espaço cultural como uma coisa para dar aos miúdos e para as escolas, mas a cultura é para toda a gente. Há muitas pessoas, de várias idades, que tem interesse em frequentá-lo, mas em horário pós-laboral”, diz perentório.

 

Ainda de acordo com Simão Matos, durante muitos anos a Casa da Cultura de Beja “teve altos e baixos e gestões diferentes”, mas, neste momento, “as coisas estavam a funcionar muito bem”, com ateliers importantes a funcionar e pessoas a frequentá-los. Posto isto, diz que não consegue entender a decisão da Câmara. E dá o exemplo de um dos ateliers mais importantes, o de Banda Desenhada e Ilustração, que reúne “entre 12 e 14” pessoas, e ilustradores vencedores de vários prémios nacionais como Paulo Monteiro, Susana Monteiro e Rita Cortez, entre outros nomes de referência na área. “Cortar um atelier como aquele é cortar a veia criativa, pois havia edições que se estavam a preparar.” Por outro lado, “o atelier na Casa da Cultura, à noite, é muito importante para a execução do Festival de Banda Desenhada, porque uma grande parte das pessoas que lá está, ajuda a fazer este festival, é voluntária”.

 

Segundo Simão Matos, por uma questão formal, o abaixo-assinado foi entregue no Município e agora o grupo de utilizadores, monitores e alunos, espera uma resposta atempada da autarquia. Ou, dito de forma direta, “que o assunto não se dilua nas férias”.

 

Contactada pelo “Diário do Alentejo” para comentar os acontecimentos, a Câmara Municipal de Beja disse que se irá “pronunciar sobre o assunto, em momento oportuno”.

 

Bandas de músicas também são prejudicadas

Para além do espaço onde vários ateliers funcionam em horário pós-laboral, a Casa da Cultura de Beja é lugar de ensaios de algumas bandas de música, também à noite. “Neste momento, esses grupos estão um pouco comprometidos porque têm o material lá e não sabem se podem aceder ou não ao espaço, que fecha às 17h 30”, observa Simão Matos, sublinhado, uma vez mais, a necessidade de uma rápida resposta do município ao exposto e pedido no abaixo-assinado.  Face a tudo isto, conclui, reafirmando: “Não creio que seja a melhor solução acabar com uma coisa [encerrar o espaço a partir das 17:30 horas], de um momento para o outro, e sem falar com as pessoas envolvidas que, como se vê, são muitas”.

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