Jorge Martins
Há uns dias, o País acordou com a notícia de uma perda de peso no mundo artístico: o cantautor Jorge Palma.Mais adiante, talvez nesse mesmo dia, soube de um outro fenómeno que insistem em relacionar com a música.No meu singelo ponto de vista, a única relação com esta arte pode surgir se pensarmos na entidade organizadora do evento onde teve lugar o referido fenómeno, uma estação de rádio, no caso, ou, no limite, pelo facto deste episódio ter envolvido um profissional que estava em cima do palco, também ele da esfera artística e musical, no momento do sucedido. Falo, pois, de mais um destes estranhos surgimentos que ganham tanta força ao chegar quanto velocidade ao desaparecer, a jovem entretanto idolatrada que invadiu o palco de um evento e, a despropósito, interrompeu a atuação que estava a decorrer para um momento que mais do que hilário ou heroico, deveria, a meu ver, ser alvo do devido repúdio.Como é óbvio, falamos de um grão de areia que, no caos social, económico e geopolítico, pouco importa e até distrai, numa espécie de entretenimento conveniente.Cada coisa no seu lugar, cada uma delas com o seu nível de importância e, evidentemente, com o seu impacto na sociedade em geral.Mas é aqui que este hype todo perde o sentido. Foi um momento, desadequado a meu ver, mas foi só isso. Um momento que “viraliza” mas cuja extensão deve parar exatamente aí.Falar, nessa sequência, em “entrevistas”, tentativas falhadas delas, patrocínios ou destaques em prime time de canais menos criteriosos mas mais assistidos pode levar à falsa ideia de que vale tudo.E não vale, meus caros. Digo-vos eu que não vale. Deste lado continuo a ser dos crentes que acreditam que a consistência, as provas dadas, a solidez e a coerência são ingredientes que não provocam enriquecimento mas, em contrapartida, dificilmente provocarão o esquecimento fácil (tal como, de resto, é exemplo o artista referido no início deste meu texto).Comecei este artigo por estes dois “acontecimentos” para chegar a um ponto que pouco tem a ver com cada um deles mas, sim, com a forma como hoje recebemos e digerimos as notícias, como as partilhamos ou como chegamos tarde a cada uma delas, sendo que por tarde, aqui, deveremos entender o momento em que já meio mundo as viu, partilhou, comentou e até, em alguns casos, esqueceu.Da primeira situação, soube pelo rádio enquanto conduzia de manhã para o trabalho (perdendo, assim, os inúmeros posts a preto e branco e o imenso fanatismo digital post mortem que, regra geral, caracteriza estes eventos). Já sobre o segundo tópico, apenas tive conhecimento após uns dias deste ter lugar e em conversa no local de trabalho, quando alguém aludiu a ele num tom de assunção clara de que o conhecimento era generalizado.Ora deve-se este interlúdio para chegar a outro ponto: há pouco mais de um mês, num misto de desafio pessoal com limpeza digital, sem datas limite ou metas específicas, optei por fazer uma pausa nas redes sociais (mais convencionais, nomeadamente, Instagram e Facebook, até porque não sou utilizador do X, nem do Tik Tok ou quaisquer outras letras ou siglas as quais ainda devo desconhecer e que, por isso, me podem estar a escapar), sobrando apenas o LinkedIn por motivos profissionais, mas cujo acesso não me recordo também de ter feito neste período.Esta decisão, que nada tem de moralista, tampouco de definitiva, tem servido, entre outras coisas, como um estudo para aferir o peso destas ferramentas no dia a dia (mesmo que não tenha sido esse o objetivo inicial).E é exatamente no termo ferramenta que me quero focar aqui. Este tipo de recurso deve ser visto, no meu entender, como ferramenta para um fim. Quando passa a ser visto (e usado) como solução, podemos ter aqui um problema. Tal como acontece, de resto, com as ferramentas de inteligência artificial, tema sobre o qual já aqui em tempos deixei a minha visão e ao qual acredito que vá voltar em breve.Materializando esta visão: continua a ser difícil para mim aceitar que o mundo passe a fluir e confluir todo numa plataforma on line. Sou 100 por cento a favor de soluções que nos encurtem as perdas de tempo, desde que com o devido equilíbrio e o correto impacto prático e social. Sou adepto de self-service. De máquinas que leem códigos quase antes de pousar os artigos e apresentam formas de pagamento automáticas. Sou defensor de ferramentas (lá está) que me permitam direcionar o tempo para o que mais importa: as pessoas. As nossas. Aquelas com quem queremos passar mais tempo.É para mim estranho, por isso, que tenha de recorrer àquele ecrã para saber dessas pessoas. Das que me interessam. Ou que eu acho que me interessam. Não falo de figuras públicas (ou abstratas ou lá o que é) que aquela plataforma me faz crer que são amigos de casa, só porque me entram pelo ecrã todos os dias, e cada vez mais, à medida que espreito – mais uma vez – o que comeram ao pequeno-almoço. Falo de amigos… que o seriam. Próximos... que os achava. Como passaram a ser as redes o alarme para parabenizar pessoas, por exemplo? Quando foi que este facilitismo social substituiu o tato? O sentido e o sentir. A proatividade não pode ser substituída pela reatividade. Não podemos considerar que “postei, está informado quem interessa”. Notem que aqui não estou a falar de uma foto de um miradouro bonito ou de uma travessa de sushi servida num barco com flores falsas. Estou a falar de temas que sustentam relações e os quais remetemos, hoje e com displicência, para um: “Então não viste no Instagram”?Mas serei eu exigente demais? O tal velho do Restelo? Tendo a reforçar aqui que não tem com o que cada um partilha, tem a ver, sim, e isto é fundamental que fique claro, com a substituição, o facilitismo, a banalização e a colocação de todos ao mesmo nível quando, na realidade, não queremos – nem somos – o mesmo de e para todos.E é aqui que voltamos aos temas iniciais: o Instagram (e derivados) acaba por ser uma espécie de loja de conveniência digital, onde encontramos de tudo e em que quase tudo vale o mesmo, sendo que no mesmo “saco” podemos encontrar: uma morte de uma figura pública, a sugestão de um restaurante fancy, a “influencer” que nos convence de que aquele creme é o melhor, as notícias (umas mais verdadeiras do que outras) do dia, a demagogia barata dos extremismos, os fenómenos que cruzam as diferentes redes e são por elas viralizados, a agenda de concertos daquela banda que queremos muito ver, ou o story de repost dos posts de aniversário (ficou confuso, agora…) que teve prioridade face a um agradecimento de uma mensagem personalizada por outro canal menos público e cujo facilitismo, mais uma vez, se sobrepôs ao cuidado. Não é uma crítica. Não se trata de um recalcamento. Não se pretende ensinar. Não se espera corrigir. É apenas a constatação do mundo onde estamos hoje ou, melhor, onde podemos não estar quando tomamos estas decisões. E aí, perderemos nós o mundo todo, deixando-o passar ao lado? Ou será a separação natural entre o trigo e o joio?Não há respostas certas, mas já dizia “o outro”: só faz falta quem cá está…