Quase a terminar o verão, o cante continua por aqui e por ali a marcar presença, a organizar eventos e a participar em espetáculos diversos. Sinal da vitalidade dos grupos, é certo, mas, nalguns locais, também com o apoio das autarquias que parecem estar mais despertas para a necessária existência de medidas de salvaguarda desta prática cultural. Seria bom que todos se coordenassem e tivessem a ousadia de delinear uma estratégia regional. Fica a sugestão.Com o início do ano escolar, alguns projetos do cante nas escolas prosseguem o seu caminho, ainda que, infelizmente, não em todos os concelhos. De Serpa ouvem-se boas notícias, entretanto. Em Baleizão, a junta de freguesia abriu inscrições para o Grupo Coral Infantil Os Cravinhos, que ali se quer implementar, e em outros pontos do território são lançados apelos à comunidade para que participem nos grupos corais. Enquanto isso, o Arquivo Digital do Cante prossegue o seu trabalho. Quer na recolha de dados e na investigação, quer aceitando convites para apresentação do projeto e resultados obtidos, divulgando assim o seu trabalho. Esta sexta-feira, dia 25, às 17:30 horas, em Aljustrel, participa numa tertúlia do cante e às 20:30 horas estará na NEI – Noite Europeia dos Investigadores, em Évora. Enquanto tudo isto acontece e se desenvolve, o Arquivo não perde o seu foco e, a cada dia que passa, documentos e mais documentos estão a ser tratados e partilhados. E eis senão quando se depara com uma, rara, notícia de um grupo coral alentejano do litoral alentejano. A surpresa reside não no facto de ali terem existido e existirem grupos de cante, pois são conhecidos vários, mas, sim, de, já em 1968, serem, também, alvo de referência. No caso, falamos do Grupo Coral da Casa do Povo de Alvalade-Sado, cuja reativação do grupo se dá nesse ano, pelas mãos de Manuel Guerreiro, conforme noticiado num pequeno texto, publicado na “Revista Alentejana”, de fevereiro de 1968. Este grupo coral tinha sido criado em 1964, por Fernando Mendes da Bica, que entretanto falecera e por isso a suspensão do grupo. Reconstituído em 1968 por um grupo de 20 homens, já com fardamento e algum dinheiro em caixa para despesas, o grupo viria a preparar-se para estar em condições de se apresentar em eventos públicos. Não obstante este grupo ter nascido em 1964, é necessário referir que a Casa do Povo de Alvalade do Sado foi fundada em 26 de junho de 1943. O grupo, então reorganizado, surge um mês antes da inauguração oficial do edifício da casa do povo, em fevereiro de 1968, e, à semelhança de outros, provavelmente com o propósito de se apresentar nesse mesmo dia de festa. Uma vez que as referências ao cante no Alentejo Litoral são parcas, pareceu-nos interessante partilhar convosco mais este dado importante sobre o cante na região, dando assim mais um contributo para o conhecimento da história do mesmo, contada pelos grupos.
Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt