São muito raros os cartazes de festas e festejos anteriores a 1950 que fazem referência explícita a grupos formais de cante. De vez em quando, porém, surge um deles, quase como quem aparece inesperadamente no meio de um arquivo e nos convida a olhar para o passado de outra maneira. É o caso deste cartaz, datado de 1938, que hoje partilhamos e que integra os arquivos do Grupo Coral Os Arraianos, de Vila Verde de Ficalho.À primeira vista, é apenas um cartaz de festa. Anuncia as “Grandiosas Festas da Nossa Senhora das Pazes”, apresenta um programa, indica horários, procissões, música, fogo de artifício e convida os “Excelentíssimos forasteiros” a participarem nos festejos. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que há muito mais para descobrir.Entre a informação sobre a festa encontramos uma referência particularmente importante: durante a tarde e a noite haveria “cantos regionais”, interpretados por grupos de Serpa, Aldeia Nova (de São Bento), Ficalho, Vale de Vargo e Pias. Curiosamente, destes “afamados grupos” apenas os grupos de Ficalho e de Aldeia Nova tinham participado na Grande Festa Alentejana, de 1937, em Lisboa. De repente, aquele pedaço de papel transforma-se numa pequena janela para a história da circulação do cante pelo território alentejano. Mostra-nos grupos, localidades, redes de sociabilidade e formas de participação cultural que, muitas vezes, permanecem invisíveis noutras fontes. Mas o cartaz conta ainda outras histórias.A sua própria composição gráfica merece atenção. A moldura ornamentada, a tipografia, a organização do texto e a ausência de qualquer representação figurativa revelam uma determinada forma de comunicar visualmente uma festa na década de 1930. É um objeto que pode interessar não apenas ao investigador do cante ou ao historiador local, mas também a investigadores ligados à história da arte, ao design, à história da cultura visual ou à história social.Seria, por isso, extraordinariamente interessante que outros cartazes deste período viessem a ser identificados, preservados e estudados. Cada um deles poderá acrescentar uma pequena peça a um puzzle ainda longe de estar completo. Poderão revelar grupos hoje esquecidos, localidades onde cantaram, formas de organização das festas e, quem sabe, novas pistas sobre a própria afirmação do cante enquanto prática cultural organizada.Afinal, é também para isso que existe o Arquivo Digital do Cante: para trazer à luz novas fontes, algumas delas aparentemente pequenas ou secundárias, mas capazes de colocar novas perguntas e de permitir novos avanços no conhecimento. E talvez uma das maiores riquezas de um arquivo desta natureza esteja precisamente aí: não apenas conservar aquilo que já conhecemos, mas descobrir, nas fontes que resistiram ao tempo, aquilo que ainda não sabemos.Este cartaz de 1938 é um desses casos. Um simples programa de festas que, quase 90 anos depois, continua a ter histórias para contar. Um cartaz onde convivem elementos herdados da cultura visual oitocentista e finissecular com soluções gráficas próprias das décadas de 1920 e 1930 que resistiram ao período da Arte Nova e foram utilizadas por uma tipografia de Albergaria-a-Velha, que produziu estes cartazes de tão relevantes festas.
Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt