Ao longo da jornada do Arquivo Digital do Cante junto dos grupos e instituições, de quando em vez somos surpreendidos com referências a grupos, dos quais, até ao momento, não tínhamos qualquer documento. E, por vezes, nem conhecimento da sua existência. Nomes como Grupo Coral Ausentes de Serpa ou Grupo de Cantadores Alentejanos de Carnaxide são disso exemplo. Sobre o primeiro, havia conhecimento do mesmo, sobre o segundo, não. Porém, nem de um nem de outro, existia qualquer evidência documental. Sendo o Arquivo Digital do Cante, fundamentalmente, um projeto de investigação, claro que, aquando de uma nova referência ou evidência, um novo achado, se vive o natural regozijo da descoberta e a ansiedade de a partilhar com todos. Mas sobre estes grupos falar-se-á noutra crónica. Hoje, dá-se destaque a Odivelas, Ferreira do Alentejo, tendo por base uma pequena, mas muito relevante, notícia publicada no “Boletim da Casa do Alentejo”, n.º 91, datada de março de 1944. Da importância da Casa do Alentejo para o cante e para todos os alentejanos e suas expressões artísticas e culturais não será preciso falar, pois continua com a mesma importância, vitalidade e vigor. Não obstante, a notícia publicada revela, subtilmente, como alguns grupos poderão ter sido criados com o intuito de se mostrarem, ou serem mostrados, em Lisboa. O que poderá explicar, em parte, a intermitência de alguns grupos de cante que, ainda hoje, com alguma naturalidade, ora estão em atividade, ora param, ora recomeçam. Dependendo, para isso, de vários fatores.Refere a publicação que, na passagem de ano de 1943 para 1944, “os assistentes a esse acontecimento, que se encontravam em grande número na Casa do Alentejo, foram surpreendidos com o aparecimento no palco de um rancho de trabalhadores de Odivelas”, Ferreira do Alentejo, “que cantaram várias canções retintamente regionais, como as ‘Janeiras’, a ‘Camponesa’”.A notícia não refere como vestiam esses trabalhadores. O nome dos temas, algo generalista, não revela com precisão se era este um rancho coral, nomenclatura em voga na altura, sobretudo, na margem esquerda. Ou se o termo “rancho”, utilizado no título, significaria “grupo de trabalhadores”. Dúvidas suscitadas no desenvolvimento do texto, ao referir-se o autor àquele “grupo orfeónico”. De facto, alguns grupos corais provêm do movimento orfeónico vivido em Portugal, sobretudo, no primeiro quartel do século XX, ainda que em Beja só na década de 1930, e após um grande esforço local, se tenha também criado um orfeão. Veremos o que ainda nos reservam achados futuros sobre este grupo e que os mesmos permitam clarificar a resposta. Contribui, ainda, para a pertinência da dúvida, o facto de o grupo ter sido organizado por António Maria Camacho, que financiou também a deslocação a Lisboa. Um lavrador da aldeia de Odivelas que terá tentado afirmar junto dos alentejanos de Lisboa que na sua terra também se cantava bem. Evidenciando, desta forma, o papel que a Casa do Alentejo terá tido no fomento de grupos corais um pouco por toda a região e diáspora.
Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt