Texto | Jorge Martins
A vida coloca-nos muitas vezes à prova.A prova disso, a maior delas, é a parentalidade.Provavelmente a prova mais amarga, certamente, a mais difícil, mas também aquela (e das poucas) para a qual saltamos sem preparação, mas com a enorme expectativa (ou, pelo menos, desejo) de ter o melhor resultado.Curiosamente, estes nunca são iguais: nem os desejos, nem os resultados, diga-se.Nesta prova o resultado não é imediato, mas mede-se diariamente. O resultado não é quantitativo, mas todos os gestos contam. O resultado que é bom para uns pode ser, paradoxalmente, frustrante para outros. Tudo depende da escala com que cada um o mede e esta é, invariavelmente, diferente para todos e para cada um.É por isso de provas que vos escrevo hoje, novamente.Passamos a vida a ter de provar que somos alguém. Que temos algo. Que chegamos algures. Que conseguimos alcançar. Que vamos mais além, que superamos. E é esta constante provação que nos coloca, mais tarde, no papel de pais, num lugar (sim, que hoje toda a gente tem, está, esteve ou veio de um lugar de qualquer coisa...) no qual, se essa prova nos corre mal, o resultado pode ser delicado e provocar danos futuros.Mas comecemos pelo início (como se quer, ou como deve de ser). Nunca tive grande controlo parental na escola. Tal como na generalidade dos temas relacionados com a minha educação, também no que diz respeito à vida académica, desde cedo a minha relação com quem me educou foi baseada na confiança. E como comportamento gera comportamento, o que eu devolvia conferia a certeza de que esse era o jogo certo a jogar: confiem, eu entrego, justifico a confiança e reforço-a, e repetimos assim a fórmula enquanto nenhuma das partes vacilar. E com isto não digo que havia um desligamento de quem tinha de acompanhar. As vidas eram outras. Os ritmos, exigências, realidades e disponibilidades não eram comparáveis com o que temos hoje. Mas, acredito, o desejo era o mesmo: sucesso (seja lá isso o que for e em que medida se queira medir). Simplesmente foi assim que foi possível. Foi assim que foi real. E foi assim que, por sorte, engenho, mérito ou outro qualquer desígnio, resultou. Mas também aqui a noção de (bom) resultado pode ser relativa. É-o, com certeza. Pois resultou em alguém que fez o percurso sem incidentes, que cumpriu aquilo que era suposto e terminou aquilo a que se propôs. E que, com isto, teve como prémio não a honra de um quadro, mas um espaço reservado no lugar do orgulho (próprio e de quem confiou). Era esse o resultado esperado? Não sei, mas aos meus olhos (e dos demais que interessavam) foi um bom resultado.Voltando ao outro lado da barricada, hoje vejo este tema (como quase tudo, de resto) com outros olhos. Os olhos de quem tem a responsabilidade de educar. De criar. De orientar. Mas há quem a estes olhos ainda acrescente mais camadas: os de exigir. O de reclamar para si. Os de cobrar. Os de esperar. Os de idealizar. E é aqui que voltamos ao tema da escala de medida do tal sucesso. É muito difícil encontrar um consenso. Tanto mais será definir o certo ou o errado. Mas não é para isso que aqui escrevo hoje. Por mais difícil que seja crer, ainda é possível hoje termos uma opinião sem que uma diferente tenha de ser condenada ou desconsiderada. Uma opinião é, e terá de continuar a sê-lo, apenas e só isso mesmo. Sem polarizações ou julgamentos. Até porque nestes temas, julgo ser unânime que cada qual faz o melhor que sabe, pode e acredita pelos e para os seus. Ainda antes de avançar, importa realçar que ter uma opinião sobre algo que não consideraríamos para nós não significa condenar essa posição para quem a toma, pois as variáveis que fazem de nós todos diferentes serão sempre motivo mais do que suficiente para não podermos considerar opções iguais para todos.Dito isto, tenho assistido a uma escalada de exigência à qual tento resistir, preferindo olhar para dentro, conhecer quem tenho de ajudar neste caminho e adaptar o meu papel às suas necessidades que serão sempre suas, assim como o tal resultado. No meu entender, o percurso académico de uma criança (cuja exigência atual está a par e passo com o quão obsoletos estão os currículos e os métodos) deve ter como principal resultado a formação de um ser consistente, consciente, mais rico cultural e cientificamente, mas também, e acima de tudo, um ser pensante e com espírito crítico.Perturba-me, por isso, a ideia de que no meio de tantas matérias consideremos que as crianças têm de ser boas... perdão... ótimas em tudo. Onde ficam os interesses? As vocações? É suposto começarmos a trabalhar o multitasking desde o pré-escolar para podermos depois, na idade adulta, responder a um anúncio do LinkedIn em que são pedidas 30 competências distintas entre si, é isso? Podemos falar da preparação para vários cenários futuros, claro. Mas sabermos aceitar que nem todos os cenários serão válidos para os nossos também deveria ser uma competência nossa, educadores. Ouvi, há dias, à saída de uma reunião de pais, uma frase que me deixou alerta e ilustra bem a mensagem que aqui hoje queria deixar. No final da reunião, que encerrava o primeiro período de um novo ciclo (que é, de resto, um salto de gigante para miúdos que vêm do ensino básico), um encarregado de educação estava bastante desagradado e a dar nota de que iria questionar a professora de uma disciplina pois, nas suas palavras, esta teria de lhe explicar o motivo pelo qual o seu educando tinha um três na pauta (que, entenda-se, destoava de todas as restantes notas, obviamente, superiores). Não sei se interessa voltar ao tema da vocação e dos interesses, mas gostava de esclarecer que a disciplina de que falávamos é nem mais nem menos do que educação musical. E terminava ainda o discurso a dizer, com estas palavras: “Não é por nada, mas está-me a fazer confusão aquele três ali”. Eu creio que este trecho ilustra bem tudo o que vos queria aqui trazer hoje: o papel dos pais. O impacto nos filhos. Onde termina a intervenção de cada uma das partes e até onde devemos considerar razoável esta exigência? Que impactos futuros trará? Em que sentido este estímulo à concorrência e esta demanda pela perfeição fará destes melhores seres humanos hoje e que reflexo terá isso amanhã? E em que é que esse foco no amanhã não nos desfoca do hoje? Há dias, também à porta da escola, um colega de turma saiu e, ao ver o avô que o esperava, correu para ele e disse, sem nenhum interlúdio: “Tive x % no teste de x, e x % no teste de y. Não consegui ter 90, mas só houve uma nota melhor do que a minha”. Falamos de uma criança de 11 anos...Dir-me-ão que a preparação se faz cedo. Que é uma questão de consciencialização para o que aí vem. Que mais vale jogar pelo seguro. Que cada qual coloca a fasquia conforme o que sabe que a criança consegue dar. Nada disto é contestável. Mas será de avaliar, isso sim, quando nos substituímos a eles nas tarefas, nas responsabilidades, na organização, na gestão e até, sim, na produção de trabalhos. Porque aí, sim, já será duvidoso o papel de cada um e o que queremos do presente e para o futuro das nossas crianças. De notar que, com isto, não defendo que as crianças não devem ser estimuladas a dar de si, a entregar o que conseguem e a desafiar-se. Nem tampouco defendo a autogestão ou a total irrelevância dos resultados: o sistema obriga a que estes contem e, em bom rigor, se bem geridos, estes podem servir de motivação. Mas, no meu entender, reforço, estes devem servir como consequência e não como objetivo. Obviamente que o nível de maturidade, interesse, entrega (e demais variáveis de perfil) têm impacto na forma como estabelecemos o grau de exigência. Não falamos de displicência nem de uma postura de laissez-faire. Falo apenas de adequação. Respeito. Expectativa. Prioridades. Valorização. Regulação.A reflexão já vai longa, mas tem margem para outros ângulos. Conto voltar um dia para falar de gestão da frustração, de adultização, de idealização e de muitas outras coisas que, digo-vos eu, deveriam sempre ser colocadas nesta balança de modo a garantir o equilíbrio, o tal que insisto em trazer para estes meus escritos por acreditar que tem cabimento em todas as matérias.