Texto Luís Miguel Ricardo
Tem 31 anos. É natural de Ferreira do Alentejo. É formado em Artes do Espetáculo. E refere que é parvo porque fala dele próprio “na 3.ª pessoa”. E muda o registo, e passa a falar na primeira pessoa. E é na primeira pessoa que refere os momentos mais relevantes do seu percurso ligado às artes: atuou nos festivais Rock in Rio, Marés Vivas e, mais recentemente, no programa Got Talent, da “RTP”. Diz que “houve uma vez que fiz a minha avó rir, e ela é um público difícil. Estará no topo dos meus achievements”. Eis Kenny Simões, exclusivamente, na primeira pessoa!
Como se define enquanto artista?
Sou comediante. Acho que há um critério qualquer para uma pessoa digivoluir (evoluir digitalmente) de comediante para “humorista”. Gostava de saber qual é, que é isso que eu quero ser.
Como começou o seu percurso na criação de conteúdos/comédia?
Por volta do ano de 2010 tinha uma câmara do meu pai, tinha Internet, não tinha muita piada, mas comecei a fazer vídeos para o Youtube. A comédia stand-up começa em 2022, num espetáculo aleatório, em Ferreira do Alentejo, para o qual fui convidado. Por sorte, esse espetáculo foi com o André Martins, a Ana Arrebentinha e o João Seabra. E eles foram desonestos o suficiente para me dizerem que até tinha jeito para a coisa. Desde aí fui fazendo umas coisas e não parei mais.
Dos trabalhos/projetos em que já participou, há algum a destacar?
O espetáculo “Mau Perder”, no Teatro da Trindade, com os meus amigos Jonas e Miguel Vieira. Foi a experiência mais stressante e consumidora de tempo que tive, mas também a mais gratificante. Acredito que montámos ali um espetáculo porreiro. E foi fantástico que cerca de 400 malucos decidissem pagar 20 “paus” (euros) para ir, numa terça-feira à noite, ver estes três idiotas fazerem as suas macacadas.
Experimentou mais alguma expressão artística?
Experimentei ser músico. Toco guitarra desde os 12 anos, apesar de achar que há miúdos de 12 anos que tocam melhor do que eu toco, com 31. Ainda me safo muito bem no karaoke.
Como é o seu processo criativo?
Algumas ideias surgem espontaneamente, outras vezes forço-me a encontrá-las. Meto-me horas sozinho, no computador, a escrever coisas idiotas. Também pratico o chamado brainstorming com colegas igualmente idiotas.
O que representa o Alentejo no percurso de Kenny Simões?
Sinto cada vez mais um certo bairrismo em relação ao Alentejo no seu todo, quer o Alto, quer o Baixo. Da mesma maneira que um rapper expõe orgulhosamente a sua zona e o seu código postal, eu sinto isso em relação ao Alentejo. A pronúncia é, sem dúvida alguma, aquilo que mais me esforço por manter e estudar, especialmente, agora que estou longe. Sempre admirei como uma pessoa do Porto, de Guimarães, de Braga, de São Miguel, carrega com ela o sotaque da sua terra. E fico feliz por, cada vez mais, o sotaque alentejano, muito graças à música, estar mais popularizado. Acho que na minha geração, muitos alentejanos, eu incluído, acabávamos por nos sujeitar a uma certa neutralidade fonética da capital e de outras cidades, quando nelas nos estabelecíamos. Não é que ache que eu faça muita diferença, mas quero contribuir para que o sotaque se mantenha. Tem tanto de bonito quanto de engraçado. Eu vivi no Alentejo 21 anos. Dezoito mais três. Passei no Alentejo a infância, a adolescência e aquela fase em que estás desempregado depois de sair da faculdade. Por isso, inspiro-me muito no quotidiano do Alentejo. Por exemplo, as barbaridades que são proferidas numa tasca, às quatro horas da tarde, em Castro Verde, não têm rival cómico.
Testa o teu material antes de o publicar/atuar?
Testo. Testo muito com a minha namorada e com os meus amigos. Sofrem muito. Se o que vai para palco às vezes não tem piada, imagine-se o que fica em casa!
Já contou uma piada que achava genial e que não teve o efeito desejado?
Sim. Lidei com a arrogância com que se aborda este tipo de assuntos. Contei a piada e depois disse “Esta piada é muito boa noutros sítios”. E nem é! Mas a regra é hostilizar sempre o público. Estou evidentemente a brincar. É só porque eu acho que, em quatro anos, ainda não aprendi a lidar com isso. Dói sempre.
E já se confrontou com alguma piada/conteúdo mal interpretado?
Sim. Eu tenho uma piada sobre pessoas no Facebook que têm fotos de perfil com molduras a dizer “Eu apoio os bombeiros”. E sempre que vejo uma moldura dessas comento com um emoji do fogo, a ver se apagam alguma coisa. Por qualquer razão, sempre assumiram que eu estou a atacar o corajoso trabalho dos nossos bombeiros. Mas eu estou só a atacar as pessoas que metem molduras nas fotografias do Facebook.
Como lida com as críticas menos positivas, tanto nas redes sociais como no palco?
No palco é o que é. O stand-up não te dá grande margem de manobra. Eu só sei se é bom se as pessoas se rirem. Há um feedback instantâneo da qualidade da arte que estás a entregar. Se não se rirem, estou sempre disposto a ouvir conselhos para melhorar o texto ou a entrega. Nas redes sociais evito ler o muito bom e o muito mau. Vai sempre haver quem me queira ver a levar enxertos de porrada e quem queira casar comigo.
Quais as principais diferenças entre fazer humor ao vivo e criar conteúdo para redes sociais?
Há muitas diferenças. Por exemplo, num sketch eu posso, visualmente, contextualizar o tópico que estou a tratar, enquanto no stand-up é um “gajo” e um microfone. Não há grande volta a dar. Eu gosto de fazer ambos, mas não há nada que goste mais de fazer do que stand-up. É aquilo do qual eu não abdico por nada.
Alguma situação inusitada experimentada ao longo do seu percurso artístico?
Alcains. Foi o espetáculo que mais perto esteve de me fazer desistir disto. Estamos a falar dum palco do tamanho do Rock in Rio, com um público de mais de um milhar de pessoas, em pé, em que eu e mais três meninos foram, com menos de um ano de stand-up comedy no bucho, abrir para a banda Black Mamba, numa terra chamada Alcains. Foi a primeira vez que fui vaiado e que me mandaram sair do palco. Acho que o palco estar ali ou não, para aquelas pessoas, era completamente indiferente. Às tantas está um miúdo a bater no pé do Tatanka (vocalista dos Black Mamba) a perguntar “Quando é que isto acaba?”.
Como é a vida de um comediante em Portugal e no Alentejo?
Será tão difícil viver da comédia quanto de qualquer outra arte. Não sei qual será a percentagem, mas a maioria dos comediantes que conheço não vive inteiramente da comédia. Eu sou um híbrido, que junta o que ganha dos espetáculos com o que ganha da criação de conteúdos. Acho que, por enquanto, não conseguiria viver da comédia, se tirasse a criação de conteúdos da equação. Há muito mais oportunidades financeiras desse lado do que apenas dos espetáculos.
Que conselho daria a quem quer começar uma carreira na comédia e/ou na criação de conteúdos?
A única coisa que diria é não ter medo de errar. Não ter medo de fazer figura de urso. Acho que isso serve para ambos. É rara a coisa que começamos a fazer muito bem à primeira. O outro conselho será ter dinheiro. Se eu não tivesse o apoio dos meus pais e dos meus avós, no início, não conseguiria estar onde estou. E calma, que ainda nem estou por aí além.
Que sonhos artísticos moram em Kenny Simões?
Há três coisas que gostava de fechar na minha checklist: fazer um filme/série; encher um coliseu; ou, quem sabe, esgotar um Pax Júlia [Teatro Municipal, em Beja]. Isto está por ordem de dificuldade.
E o que está na manga?
Já estou a preparar o meu primeiro espetáculo, em nome próprio e inteiramente sozinho. Coisa que acontecerá para o ano de 2027. Vai ser uma espécie de despedida do Armindo e do Johnny G.