Diário do Alentejo

“Dona Maria”: Os vinhos aristocráticos do Alentejo

08 de julho 2023 - 10:00
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Texto Manuel Baiôa

 

Os vinhos “Dona Maria” nascem na Quinta do Carmo, em Estremoz, um pequeno palácio barroco, com jardim, vinhas e uma adega anexa. É o produtor de vinho alentejano que melhor se aproxima do conceito de “château” francês, aliando a História, a herança familiar, o bom gosto e a sofisticação ao mundo rural.

 

DE QUINTA DO CARMO A DONA MARIA VINHOS

Júlio Bastos é um dos responsáveis por o vinho alentejano ter ascendido nos últimos 40 anos a um patamar de prestígio e reconhecimento que não tinha outrora.

 

Em 1986 caiu sobre os seus ombros a responsabilidade de levar por diante a quinta do Carmo, uma importante casa agrícola em Estremoz, devido à morte prematura do seu pai, Júlio Bandeira Bastos. A sua família tinha algumas herdades e umas das mais belas quintas portuguesas, com uma casa de campo apalaçada de estilo barroco joanino, jardins e a capela de Nossa Senhora do Carmo, que lhe deu o nome.

 

A quinta terá nascido na primeira metade do século XVIII pela doação do rei Dom João V a uma amante chamada “Dona Maria”. No final do século XIX a Quinta do Carmo pertenceu a John Reynolds e a Isabel Andrade Bastos que também eram donos da herdade do Mouchão, sendo responsáveis por introduzirem a casta Alicante Bouschet no nosso país e o recurso ao estágio em barricas e tonéis para a fermentação e estágio de vinhos alentejanos.

 

A produção de vinho continuou na quinta do Carmo ao longo do século XX, sendo vendida localmente e a engarrafadores, ganhando vários prémios, mas sem terem marca própria. Foi já com a gestão de Júlio Bastos que saíram os primeiros vinhos “Quinta do Carmo Garrafeira” 1985, 1986 e 1987, com enologia de João Portugal Ramos.

 

Estes vinhos catapultaram esta casa para o olimpo dos grandes vinhos portugueses, embora a produção ainda fosse pequena. A chegada dos primeiros fundos comunitários após a entrada de Portugal na CEE em 1986, a criação das primeiras denominações de origem alentejanas em 1988 e a fundação da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana em 1989 estimularam um forte investimento e reestruturação das vinhas e adegas alentejanas e uma aposta na comercialização.

 

Dentro deste espírito, Júlio Bastos estabeleceu, em 1992, uma sociedade com a famosa família francesa “Domaines Barons de Rothschild (Lafite)”, que adquiriu 50 por cento das vinhas e da marca “Quinta do Carmo”, sendo construída uma nova adega na herdade das Carvalhas.

 

A sociedade não durou muito tempo devido a divergências sobre o perfil dos vinhos e sobre o arranque de uma vinha velhíssima de Alicante Bouschet, marca identitária da casa e da família. Júlio Bastos vendeu a sua quota em 2000 ao empresário Joe Berardo e viu-se sem vinhas e sem a marca “Quinta do Carmo”, propriedade da sociedade.

 

No entanto, era o dono da “verdadeira” quinta do Carmo, com a sua antiga adega, que preservava grandes lagares de mármore de Estremoz, mantinha uma paixão pelo mundo do vinho e um saber acumulado que não queria desperdiçar.

 

Por isso comprou uma vinha velha de 40 hectares, vizinha e progénita do seu antigo vinhedo, que tinha velhas cepas da casta Alicante Bouschet que tanto admirava, que carregavam uma herança genética das primeiras varas que vieram de França no século XIX, sendo menos produtivas e tintureiras que os clones atuais da casta.

 

Por fim, comprou a marca “Dona Maria” à Real Companhia Velha e iniciou uma nova aventura a partir de 2003.

OS VINHOS “DONA MARIA”

Os vinhos estão associados umbilicalmente ao lugar onde as uvas nasceram, mas também às pessoas que os tornam possível, e que um dia sonharam com um determinado perfil de vinho.

 

Os vinhos de Júlio Bastos são influenciados pelo terroir de Estremoz, pela tradição familiar alentejana e pelo conhecimento que ele foi adquirindo das grandes casas de vinhos da Europa. A jovem enóloga Sandra Gonçalves, que está no projeto “Dona Maria” desde o início, tem tido também um papel fundamental na afirmação desta marca que completa 20 anos na vindima que se aproxima.

 

Sandra Gonçalves atribui a qualidade dos vinhos desta casa ao lugar onde as vinhas estão implantadas, “num solo argilo-calcário parecido com os da Bairrada”, com uma “altitude de 380 metros semelhante ao Dão”, mas num clima do norte alentejano. São “vinhas não regadas, mas com muita água no subsolo”.

 

Concomitantemente, destaca a resiliência de Júlio Bastos que com o dinheiro da venda da sociedade comprou “um terreno ao lado da vinha mais velha e plantou de novo. Depois comprou uma vinha velha (com mais de 50 anos) que produzia a melhor uva que entrava na Adega Cooperativa de Borba. Tinha sido plantada com as mesmas varas da antiga propriedade da sua tia-bisavó.

 

A partir dessa vinha de Alicante Bouschet, começou a plantar mais Alicante com esse clone. Foi recuperar esse clone que tinha sido interrompido pelos franceses”. Outro aspeto importante é a preservação das técnicas de vinificação antiga, com a utilização dos “lagares de mármore de Estremoz, a bela pedra da zona para a pisa da uva tinta.

 

A uva entra pela janela já desengaçada e depois é pisada ao longo de um a dois dias”. Estes lagares são de grande dimensão, com 12 toneladas, maiores do que os do Douro que levam cinco a seis toneladas, e, “por isso, muito exigentes na pisa a pé”.

 

O vinho topo de gama da casa (“Júlio B. Bastos”, Alicante Bouschet) é uma homenagem ao pai de Júlio Bastos, à tradição familiar de vinificação em lagare de mármore e à casta Alicante Bouschet que a sua família importou de França no século XIX. O resto do vasto portefólio desta empresa vem com o nome “Dona Maria”, num estilo de vinhos que combina a tradição alentejana com o refinamento do estilo internacional dos “châteaux de Bordeaux”, entre os quais destacamos hoje o branco e o rosé.

 

"DONA MARIA ROSÉ 2022" - Vinho Regional Alentejano, Júlio Bastos – Dona Maria Vinhos

Castas: Aragonez e Touriga Nacional, 12 por cento vol./ PVP: 9,95€;Descrição: Apresenta uma cor rosa claro, característica dos rosés modernos elaborados com uvas destinadas em exclusivo aos rosés e de prensa direta. No nariz percecionamos alguns aromas vegetais, hortelã e rosas. Na boca mostra-se muito fresco, com apontamentos de fruto tropical e morangos. Excelente para entradas, saladas e Sushi;

 

"DONA MARIA BRANCO 2022" - Vinho Regional Alentejano, Júlio Bastos – Dona Maria Vinhos

Castas: Arinto, Antão Vaz e Viosinho, 12,5 por cento vol./ PVP: 9,95€;Descrição: Apresenta aromas citrinos e florais, embora contidos. Na boca é um vinho de grande elegância, com equilíbrio entre a fruta e a acidez. O final é longo e persistente, embora a sua maior virtude seja a delicadeza.

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