Um árbitro da nova geração. Um jovem que, assim os ventos soprem de feição, terá um largo futuro na arbitragem portuguesa. Sabe onde está e até onde quer chegar. Tem uma personalidade bem vincada, muita ambição e maior paixão pelo futebol. Com fino trato e elegância no raciocínio, este docente de Língua Portuguesa terá futuro na arbitragem.
Texto Firmino PaixãoFoto António Santos
João Ferrinho, de 21 anos, nascido em Beja, teve uma infância, naturalmente, feliz, durante a qual foi um futebolista polivalente na equipa de benjamins do Núcleo do Sporting Clube de Portugal em Beja, há muito extinta. “Era um jogador mediano, nada de especial. Joguei em várias posições, fui guarda-redes, fui defesa lateral e também joguei a ponta-de-lança. Foi uma carreira curta, mas fiquei com o bichinho do desporto e do futebol, em particular”, admite o jovem professor que leciona Língua Portuguesa na Escola Mário Beirão, na cidade de Beja, deixando ainda a nota de ter sentido algum interesse pelo andebol e estar prestes a inscrever-se na Zona Azul, mas não chegou a acontecer. O percurso académico até ao 12.º ano fê-lo em Beja, após o que rumou para a Universidade de Évora, onde se licenciou em História. Porquê História? A explicação foi linear: “À semelhança do desporto, a história foi, também, um interesse que nasceu ainda eu era muito novo. Sempre gostei de história e, depois, no ensino secundário, tive a sorte de ter dois professores que me cativaram imenso e me fizeram perceber que essa seria uma área a explorar, e que até coincidia com os meus interesses pessoais. Arrisquei, mesmo sabendo que seria uma área profissionalmente muito difícil. Decidi ir para História e adorei os três anos que passei em Évora para concluir a licenciatura”. Será que João já se interrogava, amiudadamente, sobre as grandes epopeias do nosso passado? “Sim! É através do conhecimento do passado que nós conseguiremos perceber o que é hoje o presente e tomar os melhores passos para o futuro. Sem o estudo da história, eu diria que não seria possível avaliarmos competentemente o melhor caminho para o futuro. Por isso, a história tem um papel muito importante que, às vezes, é desvalorizado. Mas essa será outra discussão”, garantiu, com uma tirada que também teve o seu teor filosófico: “Exatamente. Por que não? A história também contempla um bocadinho de filosofia. Se calhar, todos nós temos um bocadinho de filósofos, principalmente, no desporto”. A verdade é que João Ferrinho estava a acautelar o futuro, a encontrar uma profissão, a construir um caminho para ir ao encontro de muitos meninos e meninas que o esperavam numa sala de aulas: “O curso não é virado para a via ensino, é um curso de investigação”, lembra o docente, continuando: “Mas, cá está, a área de história, ao nível da investigação, é uma área muito precária, existem poucas oportunidades e as que existem não são muito estáveis, então, o ensino acaba por ser uma alternativa que é muito recorrida pelas pessoas que tiram História. Tive essa oportunidade, surgiu um concurso em Beja, concorri, tive a felicidade de ganhar e de entrar. Estive neste ano letivo como docente, penso continuar no próximo ano, ainda no regime de docente contratado, mas, sim, acho que a via ensino é uma via a explorar e, claro, com a idade que tenho foi uma experiência muito desafiante”. Mas a dúvida persistia, o desporto, a arbitragem era alguma paixão que estaria em “banho-maria”? “Na verdade, eu sempre tive este gosto pelo futebol, mas desde miúdo que tinha um sonho em particular, que era ser treinador. Não era bem ser jogador, preferia ser treinador. Mas isso tem os seus custos, sou um miúdo novo e não queria estar já a fazer esse investimento. O curso de árbitro era gratuito e então decidi ir tirá-lo, queria ouvir o que diziam, saber como seria esse hobby, e decidi experimentar. Tirei o curso, ainda estava em Évora, no meu terceiro ano de licenciatura. Gostei, comecei a fazer uns joguinhos e tomei-lhe o gosto”. Cumpriu a primeira época como filiado no conselho regional de arbitragem da Associação de Futebol de Beja, classificando-se no primeiro lugar da sua categoria (C7). “Fui muito bem recebido pelos meus colegas de arbitragem. Deram-me bons ensinamentos. Tive a sorte de ter tido vários mentores, digamos assim. Cada um à sua maneira soube dar-me as suas ferramentas. Obviamente que eu ainda me encontro em construção, há muitas coisas em que ainda tenho de melhorar e é para isso que trabalho, mas, sim, direi que fui muito bem recebido e foi uma experiência muito positiva”. Na avaliação à sua forma de estar e de agir em campo, assume-se como um juiz pedagogo. “Gosto de conversar, tentar perceber as reações e tentar comunicar. Nem sempre é possível e aí o regime tem que mudar. É uma questão, também, de avaliarmos quem é que está em campo e qual o tipo de jogo que pretendem”. Porém, como não há bela sem senão, também já se questionou: “Quem me mandou a mim vir para isto?”. “Quando as coisas aquecem mais, começamos a refletir e a pensar: será que andar aqui ao fim de semana ao calor quando podia estar em casa descansado... Será que o gosto pelo futebol é suficiente para andar aqui ou será que aquilo que me pagam compensa isto? Mas sim! Vale imensamente a pena. Fosse por menos dinheiro, ou até por mais tempo, prevalece a paixão pelo futebol”. O sonho, aos 21 anos, e com todo um mundo por descobrir, é perfeitamente legítimo: “Chegar o mais alto possível. Nós queremos sempre atingir o topo. Se será possível, ou não, há vários factores que terão que se conjugar para que isso aconteça, ou não. Eu farei a minha parte, trabalharei para isso, se acontecer, melhor ainda, mas a vida, às vezes, coloca-nos algumas pedrinhas no sapato que não nos permitem prosseguir pelo caminho que escolhemos”. Paixão e ambição, o João tem-nas, competência e resiliência, também, a sorte é um elemento imperativo, mas João sabe como ela se procura, com trabalho. Falta-nos saber o que é mais fácil e mais apelativo para este docente e árbitro de futebol: dirigir um jogo com 22 miúdos em campo ou estar numa sala de aula com igual número de alunos? “Depende do jogo e depende do dia de aulas”, clarificou. “Há dias em que os miúdos vão muito irrequietos para dentro da sala de aulas e aí estou desejando de ir para dentro do campo aturar os 22 jogadores, mas há dias em que o jogo está tão complicado que é preferível estar na sala de aulas a ensinar os miúdos. Mas diria que prefiro a sala de aulas, porque a relação com os alunos é quotidiana, não se compara com encontros pontuais ao fim de semana, em que não se criam os mesmos laços que criamos com os alunos”.