Diário do Alentejo

Um sprinter “danado”

13 de março 2026 - 17:00
Tiago Galhano (Team Danado) e Rui Rodrigues (CP de Retorta) foram os vencedores absolutos em Mértola

“Um lugar onde o tempo corre sem pressas, um lugar de horizontes a perder de vista, um lugar de cultura e de silêncios que possibilitam a escuta”. Assim se apresentou a “Vila Museu” ao pelotão composto por 191 corredores, que representaram 26 equipas de clubes nacionais.

 

Texto e Foto | Firmino Paixão

 

A partida desta primeira etapa da Taça de Portugal em Ciclismo para elites e masters aconteceu, simbolicamente, na Mina de São Domingos, no largo frontal ao mítico Campo de Futebol Cross Brown, palco de jogos do centenário São Domingos Futebol Clube. Uma terra de mineiros, onde se respira uma atmosfera com a memória muito viva. Uma terra de gente envelhecida, a quem o evento poderá não ter despertado grande entusiasmo. No mês de agosto, sim, esse é o tempo do regresso da diáspora à terra natal e aí as ruas povoam-se de antigos mineiros e antigos residentes. A partida real do pelotão aconteceu em Moreanes, que “é meu povo/e a minha aldeia é Santana/não há terra mais porreira/para cantar à alentejana”. Claro! Linda terra alentejana. Tudo isto num tempo em que os Bandidos do Cante elevaram, e de que maneira, o nosso cante alentejano, esse Património Cultural Imaterial da Humanidade. Voltemos à corrida, porque a descida para o Parque Natural do Vale do Guadiana é desafiante e o grande rio regressa, aos poucos, à normalidade do seu caudal. Uma centena de quilómetros e 500 metros para a geração mais nova (elites e masters 30/40) e 65,1 quilómetros para os restantes escalões. O percurso levou a corrida até Mértola, Alcaria Ruiva, Monte da Légua, João Serra, Penilhos e São João dos Caldeireiros. O ciclismo é uma modalidade que vai à porta das pessoas. Uma excelente ferramenta para promoção dos territórios, admitiu Mário Tomé, presidente do município da “Vila Museu”, acentuando: “Mértola é uma terra que tinha, e tem, um gosto enorme pelo ciclismo. Naturalmente, ao longo dos anos sem praticar e sem que existisse a modalidade localmente, é normal que se fosse perdendo alguma dessa ligação. Contudo, tentamos retomá-la e, mais do que isso, a nossa intenção é promover a maior diversidade possível. Na semana passada tivemos cá os Trilhos [de Mértola], nesta semana o ciclismo, porque, em boa hora, a Associação de Ciclismo do Algarve e a Federação Portuguesa de Ciclismo nos lançaram este desafio a que, obviamente, dissemos que sim, porque queríamos muito isto e já procurávamos, junto da federação, na componente Volta ao Alentejo, que tivesse partidas ou chegadas em Mértola, e posso adiantar que também já o conseguimos. Depois, a tal promoção, porque a pessoas vêm pela modalidade mas acabam por conhecer Mértola e depois regressam, por tudo aquilo que é o nosso património cultural e a nossa forma de saber receber”. Quanto ao percurso da prova, o autarca revelou: “Tivemos a preocupação de priorizar a obrigatoriedade da prova passar em todas as freguesias do concelho para nos certificarmos de que todos os mertolenses teriam a possibilidade de ver passar os ciclistas. Depois, outro aspeto tem a ver com a identidade, com a dinâmica das pessoas, algo que procuramos com tudo isto”. Ainda que, admitiu Mário Tomé, as características do território, o seu património histórico e cultural, não necessitem de grandes ferramentas de promoção. “Na verdade, Mértola e o seu concelho, só por si, geram muita atratividade do ponto de vista turístico. Depois, associando este tipo de eventos, as pessoas acabam por conhecer melhor e voltar noutra oportunidade”, concluiu.O grande protagonista da corrida foi o ciclista Tiago Galhano, corredor elite do Team Danado/ /Peçamodôvar/Associação de Mora-dores da Cerca do Pinheiro, em Castro Verde. Uma semana antes, quando perdeu, ao sprint, a Volta ao Concelho de Almodôvar, afirmou: “Temos de refletir sobre o que necessitamos de melhorar para vencermos os próximos compromissos”. Se bem prometeu, melhor cumpriu. Foi o mais rápido sobre o risco de meta, batendo, ao sprint, o cubense João Letras, do Grupo Parapedra, e José Borges, da DBL Bike, de Oliveira de Azeméis. No final revelou-se um bom cumpridor de promessas. “Quando iniciámos esta prova eu sabia que iria ser muito difícil controlar a movimentação dos adversários, porque rolavam aqui equipas com atletas muito fortes, porém, eu estou muito bem fisicamente e sabia que a chegada a Mértola me era favorável. Além de que, estando perto de casa e conhecendo bem as estradas por onde pedalámos, tinha vários estímulos para vencer a corrida. No final houve um grande trabalho de equipa e conseguimos ganhar, o que foi excelente”. O treinador, Luís Galhano, pai do atleta, acrescentou: “Houve uma fuga inicial que não foi fácil de anular, uma vez que rolavam dois elementos da mesma equipa, e, posteriormente, saíram mais quatro corredores. Tivemos de pôr toda a nossa equipa a trabalhar para anularmos a fuga, que atingiu quase um minuto de avanço. Pusemos todos os nossos recursos a trabalhar no sentido de garantirmos o nosso objetivo que era vencermos esta primeira etapa da Taça de Portugal e conseguimo-lo”.O vencedor absoluto do pelotão de masters 40 a masters 70 foi Rui Rodrigues, da Casa do Povo de Retorta. O individual Jorge Letras, cubense, venceu a corrida de master 70, destronado o histórico Manuel Caetanita.

Comentários