Diário do Alentejo

Quem sai aos seus…

25 de janeiro 2026 - 08:00
Mariana Correia, árbitra do Conselho Regional da Associação de Futebol de Beja, segue tradição familiar

“A avaliação que faço destes cinco anos de arbitragem é que tem sido um bom percurso para mim. Um percurso que tem exigido muito trabalho físico e psicológico, mas é gratificante. É uma experiência diferente e única para uma mulher. Não é fácil entrar num campo de futebol neste papel. Não é qualquer pessoa que vai lá para dentro, temos de ter uma personalidade muito forte e uma mentalidade muito consistente”.

 

Texto e Foto | Firmino Paixão

 

Uma reflexão de Mariana Correia, de 24 anos, nascida em Beja, mas criada na freguesia de Baleizão, jovem que, desde há cinco anos, se comprometeu com a arbitragem de futebol, seguindo uma tradição familiar, inspirada no pai, João Correia, e no tio, António Teixeira Correia, ambos antigos árbitros com trajetos diferenciados. O seu percurso desportivo foi iniciado no atletismo, com a camisola da Juventude Desportiva das Neves. “Tive um percurso muito gratificante, e muito feliz, no atletismo, mas abandonei a modalidade devido a uma lesão num joelho e também por falta de tempo para conciliar com o resto das atividades em que, entretanto, me envolvi, nomeadamente, a vida profissional e a arbitragem no futebol”. Mariana Correia completou o 12.º ano de escolaridade, após o qual se formou como esteticista, área profissional que decidiu seguir e lhe permite conciliar com a atividade desportiva na arbitragem. Uma opção sobre a qual deixou uma interessante confissão: “Tirei o curso de arbitragem às escondidas. É verdade que me inspirei nas carreiras que o meu pai e o meu tio tiveram nesta atividade, mas eles não queriam que eu lhes seguisse o exemplo. Tinham um bocadinho de receio por ser mulher e saberem o que uma mulher sofre, porque quando o meu pai esteve no ativo fez equipa também com uma mulher, Maria Bárbara, e não queria que eu fosse para a arbitragem”. Porém, a vontade era grande e superou as opiniões desfavoráveis. “Foi uma decisão que tomei, influenciada pela tradição familiar, porque, na verdade, a arbitragem era tema de todas as conversas com o meu pai, que, como referi, não era favorável a que eu enveredasse por esse caminho”. A surpresa veio mais adiante. “Entretanto, ele descobriu que eu tinha tirado o curso e aí, sim, tive o seu apoio incondicional. Foi engraçado ter tirado o curso sem ele saber e, mais adiante, saber que ele afinal sempre tinha disponibilidade para me dar aquele empurrãozinho, para que eu fosse melhor naquilo que tinha decidido fazer”. Atualmente na categoria C6, Mariana faz inúmeros jogos como assistente, a sua área preferencial e a linha que quer seguir, mas já dirigiu jogos a solo e ainda recorda a sua estreia. “O meu primeiro jogo, aquele que tenho na memória, foi entre o Ferreirense e o Desportivo de Beja, na categoria de infantis. Uma partida que dirigi em parceria com Adão Henriques”. A sua preparação é exigente, admitiu. “Para andar na arbitragem, temos de trabalhar imenso, não basta andar lá dentro de campo, temos de ter um trabalho físico intenso e estudar bastante as regras, cuja aplicação depende do momento, da circunstância e dos intervenientes, ou seja, a décima oitava lei, que é a ‘lei do bom senso’, como costumamos dizer. O bom senso também é essencial, tudo depende do momento e do calor do jogo”. E a propósito de momentos e das incidências do jogo, Mariana Correia admitiu aqui, com notável humildade, aquele que, presumivelmente, terá sido o pior episódio da sua ainda curta carreira. “Passei por um mau momento num jogo, no Estádio Municipal de Aljustrel, para o Campeonato Distrital da 1.ª Divisão de seniores masculinos. Anulei um golo que seria, eventualmente, decisivo para uma das equipas vencer. Foi um erro. Admiti esse erro assim que cheguei ao balneário e vi o vídeo do lance. Mas, no momento, tinha de tomar uma decisão e decidi mal. Demorou a esquecer, fiquei com um sentimento de culpa, senti-me muito mal mesmo, porque foram três pontos que uma equipa perdeu por minha causa”. Uma confissão que é simultaneamente um ato de aprendizagem. “Também se aprende com os erros e eu, com isso, tenho estado a evoluir muito mais. Comecei a rever vídeos de lances similares e isso tem servido de estudo para mim. Temos de evoluir constantemente e a arbitragem é uma grande ferramenta para novas aprendizagens para a vida”. Não admira, por isso, que a sua carreira seja visionada por aqueles que a inspiraram. “O meu pai e o meu tio são os meus maiores críticos, mas isso é bom, ajuda-me a crescer e a evoluir. Recebo conselhos dos dois, mas, principalmente, do meu pai, que costuma ver os jogos sempre que tem oportunidade. Quando o vejo no campo sinto-me um pouco pressionada, mas é normal. Quando chego a casa começa logo a ‘dar-me na cabeça’, a elencar alguns erros que identificou, nomeadamente, com o posicionamento no terreno ou no diálogo com os jogadores”. E adiantou: “Procuro o exemplo do meu tio, na altura em que ele era árbitro eu seguia-o muito e tem-me servido muito de inspiração, embora ele tenha sido predominantemente árbitro principal e eu tenha preferência pela função de assistente. Ainda assim, gostava de chegar ao nível a que ele chegou”. Oxalá o consiga, mas, até lá, como se diz na gíria, “terá muita pedra para partir” e, sobretudo, contrariedades para contornar. Pois, o que era isso de dizer que o futebol é um desporto para os homens… Serão preconceitos do passado? “Ainda não é tão fácil como parece”, admitiu, contando um episódio recente vivido num campo de futebol. “Um dia destes, estive em Serpa como assistente de um jogo, e tive um senhor atrás de mim, durante os 90 minutos, a dizer-me que era mulher e deveria era estar em casa, onde as mulheres devem estar. Repetia que eu não deveria andar ali no meio dos homens, que aquilo não era lugar para mulheres. Ainda existe um bocadinho de mentalidades como esta. Um estádio de futebol ainda é, por vezes, um palco destas situações, mas, hoje em dia, já somos muitas mulheres a arbitrar e as coisas vão mudando. O futebol feminino também tem evoluído muito e isso sempre é uma ajuda também na afirmação do nosso papel, sobretudo, para as miúdas que estão agora a iniciar-se na arbitragem”. São pedras que, infelizmente se levantam no percurso de uma mulher, como no de cada um de nós. Levará o seu tempo, mas isso não nos impede de sonhar. E Marina Correia tem toda a legitimidade para o fazer. “Quero chegar o mais longe possível, pelo menos, atingir a categoria nacional”, garantiu.

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