Diário do Alentejo

João Nunes, treinador do Aljustrelense, defende uma mudança na cultura desportiva regional

07 de novembro 2025 - 08:00
“Candeia que vai à frente…”
Foto | Firmino PaixãoFoto | Firmino Paixão

O Mineiro Aljustrelense é, desde há três jornadas, o líder isolado do Campeonato Distrital da 1.ª Divisão da Associação de Futebol de Beja. “A posição ainda não é muito confortável”, admite o treinador João Nunes.

 

Texto Firmino Paixão

 

“Candeia que vai à frente alumia duas vezes”, diz o provérbio, e à sétima jornada o Mineiro está no topo da tabela. Porém, o treinador lembrou: “O campeonato ainda agora ‘vai no adro’, utilizando esta expressão popular. Muitas equipas ainda irão ganhar e perder pontos e nós vamos tentar consolidar, portanto, ainda não podemos dizer que é uma posição confortável, porque temos os nossos adversários muito perto”.

 

O primeiro lugar já tem algum significado, que mais não seja, expressa a regularidade da equipa…

Estou habituado a discutir títulos e nunca olho muito à classificação. Vejo as coisas tendo sempre o próximo jogo como o mais difícil. Nunca embandeiro em arco. Esta semana voltou a ser intensa, não houve muitos sorrisos por estarmos em primeiro lugar. Só no final é que isso nos dirá alguma coisa.

 

O Aljustrelense luta pelo título?

Sim, é verdade. Sou ambicioso, quero chegar a outros patamares. Quero representar bem este distrito, quero poder dizer que fui aqui bem tratado, numa região que é justa com o futebol, não vi ainda nada que possa dizer que é alarmante. Já estive noutros campeonatos em que havia muitas conexões, muitos interesses, aqui, não, felizmente, não me parece que o exista e isso permite que o futebol seja salvaguardado e defendido. Subindo de divisão, terei todo o gosto em dizer que fui um treinador ganhador no distrito de Beja, até porque amo o Alentejo.

 

Já se identificou com os pergaminhos do Mineiro?

O Mineiro é um clube onde se pode afirmar que o associativismo ainda está bem vivo. As pessoas gostam e apoiam muito o clube. Noutros clubes onde estive nota-se que o associativismo está a desaparecer. Aqui ainda se sente muito essa mística clubista. As pessoas orgulham-se e enchem o peito quando falam do Mineiro. O clube tem excelentes condições de trabalho. Tem pessoas muito sérias, muito certinhas, com quem eu gosto muito de trabalhar. Acredito que vamos levar o barco a bom porto, porque as pessoas merecem e têm ambição.

 

Percebe-se que já ganhou uma equipa, mas também terá de ganhar a massa associativa do clube, que é muito exigente…

É verdade, mas acho que a massa associativa tem de perceber que o clube nunca pode ser gerido de fora para dentro, mas pelo inverso. Portanto, as minhas opções dentro do plantel também serão assim. Os adeptos fazem o seu papel, são aguerridos, são exigentes, mas terão de compreender que, no dia a dia da gestão da equipa, existem coisas que eles desconhecem e terão de compreender que quem está de segunda a sexta com os atletas é que sabe o que se passa com eles e nunca quem está distante. Agora, nós estamos num processo em que queremos vitórias mais do que ninguém. Um dia aparecerá uma derrota, mas, quando isso acontecer, estaremos preparados para a ultrapassar, porque também trabalhamos nisso.

 

Trouxe jogadores para acrescentar ao plantel que existia. Mas sabe que os adeptos gostam de ver os filhos da terra a vestir a camisola do clube?

Sem dúvida. Mas temos de ver a evolução do futebol deste distrito e perceber que os filhos da terra que cá estão permanecem porque têm valor. O futebol mudou. Se olharmos, muito objetivamente, para equipas que estão consolidadas no Campeonato de Portugal, por exemplo, o Serpa, são projetos que já assentam muito em jogadores de fora. Outros, que não vou referir, andam num sobe e desce, sem consolidação. Os nossos jovens, hoje, estão mais focados num futuro académico. No entanto é possível estudar e jogar futebol, porque Aljustrel está a 35 minutos de uma universidade em Beja. Temos é de mudar as mentalidades.

 

Costuma pesquisar talentos nos escalões de formação?

Sim. É interessante falar da formação, porque o meu ADN é muito ligado a ela. Posso dizer que os primeiros três meses são de análise e já fiz isso neste clube. Há coisas que estão bem-feitas – e não é por acaso que temos a certificação de três estrelas –, mas há coisas que temos de melhorar, nomeadamente, a forma como olhamos o treino. Não é olhar o treino de uma forma profissional, mas de uma forma que eu diga que é profissional, adaptado às idades. Uma criança num jardim de infância é cuidada por profissionais, uma criança numa escola primária é acompanhada por profissionais, um jovem universitário é orientado por profissionais, portanto, não são só os universitários que terão de ter acompanhamento de profissionais. Os restantes também o exigem. Temos de olhar o futebol desta forma. Os conteúdos que abordamos serão diferentes, mas as pessoas terão de ser profissionais, independentemente do tempo em que se dedicam.

 

O que o atraiu no projeto do Mineiro Aljustrelense? Quer deixar a sua marca no clube, como deixou em Almodôvar?

Deixei dois títulos em Almodôvar, a Taça de Honra e a Taça Distrito de Beja. Quem seria o treinador com ambição que pegaria num clube que estava em penúltimo lugar e acabara de perder com o último? Eu fui convidado e aceitei esse desafio. As ideias para este ano são outras, a base também era diferente, mas o projeto tem a mesma essência, tem uma cultura diferente, mas diferente para melhor.

 

Está confiante no futuro?

Confio muito nos meus jogadores e naquilo que estamos conseguindo fazer. Sei que ainda há muito caminho para trilhar. Sendo a primeira época neste clube, ainda existem ajustes a fazer, há coisas que ainda não conseguimos, nomeadamente, incutir uma cultura diferente nos jogadores. Uma cultura de treino, uma cultura de exigência, uma forma de não perdermos tempo a passar a bola porque estamos a ganhar. Não quero saber disso. Temos de ter uma cultura ganhadora. Acredito que o fair play ajuda a ganhar jogos, como escreveu o professor Silveira Ramos, por isso, fico fora de mim quando o fair play não existe, seja em que equipa for.

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