Diário do Alentejo

Quando nasce um ator

16 de outubro 2022 - 11:00
Hugo Bentes, do cante alentejano ao Festival de Veneza
Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

Foi jogador de futebol e já fez parte de grupos corais alentejanos. É músico e cantador de cante. Nascido em Serpa e a viver há 11 anos em Beja, Hugo Bentes estreou-se no cinema em 2018, na longa-metragem “Raiva”. O público aplaudiu-o, a crítica elogiou-lhe o desempenho e a Academia Portuguesa de Cinema distinguiu- o com o prémio Sophia de Melhor Ator Principal. Regressou recentemente ao grande ecrã em “A noiva”, para interpretar o papel de um pai a viver um drama familiar, e neste momento já trabalha na próxima personagem. É toda uma região com vaidade no seu ator, que sente “orgulho de poder representá-la”.

 

Texto Júlia Serrão

 

Em “A Noiva”, interpreta o papel de pai de uma adolescente europeia que foge de casa para casar com um guerreiro do Daesh, e três anos mais tarde – já viúva, mãe de dois filhos e grávida – está num campo de prisioneiros no Iraque à espera de ser julgada pelos tribunais do país.

 

Hugo Bentes admite ter sentido dificuldades na construção da personagem: “Quando o Sérgio [Tréfaut] me passou o guião, defrontei-me logo com um problema que era como vou interpretar este papel sendo eu pai, sem à partida fazer juízos de valor?!” Mas explica que o facto de ser pai, por outro lado também o ajudou a interpretar o papel, pois imaginou “como seria se tivesse de viver esta realidade”.

 

Não é a primeira vez que interpreta um papel dramático no cinema. Antes de “A Noiva”, de Sérgio Tréfaut, apresentado em setembro no Festival de Veneza 2022, entrou no elenco de “Raiva”, do mesmo realizador.

 

Um filme a preto e branco que adapta ao grande ecrã a obra Seara de Vento, de Manuel da Fonseca, “sobre a pobreza, a opressão e as injustiças sociais” vividas no Baixo Alentejo, e que é inspirada num acontecimento real ocorrido nos anos 30, em Beja.

 

Hugo Bentes é o protagonista no papel de António Palma, um homem que as circunstâncias da vida transformam num assassino: mata o latifundiário da terra e refugia-se em casa, onde acaba por ser morto pela Guarda Nacional Republicana (GNR).

 

Recorda que foi um enorme desafio, mas que se sentiu “perfeitamente encaixado naquele personagem”: “Era como se eu tivesse vivido de facto naquela altura e aquela situação, que fala da exploração que o povo alentejano sofreu, nos anos 30, 50.”

 

A crítica elogiou-lhe o desempenho como “extraordinário, superando todas as expetativas”, ainda mais “tendo em conta que não é ator”, escreveu-se. E a Academia Portuguesa de Cinema distinguiu-o com o prémio Sophia de Melhor Ator Principal 2019, tendo a longa-metragem de Tréfaut arrecadado um total de seis prémios.

 

Do documentário ao filme, o percurso de um ator nato Embora soubesse que tinha interpretado muito bem o papel, porque lhe foi dito, não imaginou que isso pudesse traduzir-se numa distinção do género, logo na sua estreia no cinema.

 

“Foi uma surpresa quando fui nomeado, e depois confirmado como melhor ator principal”, diz. A primeira reação foi de “espanto”, em que se perguntava se seria “mesmo verdade”. A segunda de gratidão. “Não faço filmes a pensar nos galardões, mas porque gosto e a pensar no espetador, mas foi gratificante ganhar o prémio e ver o filme vencer em seis categorias.”

 

Tréfaut, que chegou a imaginar Jarvier Barden no papel de António Palma, mas que, como disse em entrevistas, “não tinha dinheiro nem para o pequeno-almoço” do ator espanhol, lembrou-se de Hugo Bentes. Conhecera-o no âmbito do documentário “Alentejo, Alentejo”, que fez para reforçar a candidatura do cante a Património Imaterial da Humanidade a convite da Câmara de Serpa, e onde participaram todos os grupos corais do concelho. Bentes, que está ligado ao cante alentejano desde sempre, fazia parte do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa. 

 

Foi cartaz do documentário, tendo o realizador explicado a escolha com “a pose” do jovem cantador que era de “orgulho, honra e de representatividade do Alentejo”.

 

Teve a certeza que ele era o “seu Palma”, como disse em entrevista à “TSF”, a 31 de outubro de 2018: “Representava o orgulho identitário do Alentejo, conhece aquela história, tem aquela cara muito poderosa, e uma star quality que não se aprende.” Disse também à Infocul.pt, na altura: “O Hugo, além de disciplina, humildade e muito talento, tem algo que não passa pela sua vontade. Tem o que no cinema se chama star quality. Os grandes planos dele são como os dos monstros do cinema (…) E ele nunca é falso. Nunca é excessivo.”

 

O papel em “Raiva” trouxe-lhe afirmação como ator, e o prémio projeção. Já não passa despercebido.

 

“Na rua, as pessoas falam comigo, dão-me os parabéns. Quando recentemente viajei para Itália, para o Festival de Veneza, reconheceram-me no avião. Isso é bom, porque é o reconhecer de um trabalho que aos poucos vai dando frutos. Mas faço por não mudar muito a minha vida. Tenho os pés bem assentes na terra e dou um passinho de cada vez, que é assim que eu gosto de estar.”

 

A LIGAÇÃO AO CANTE ALENTEJANO DESDE MIÚDO 

A família reserva-se à mesma postura. Hugo Bentes é casado e tem dois rapazes – um de oito e outro de 18 anos, que também está no cante e aparece no documentário “Alentejo, Alentejo”. O mais novo, “que é todo artista”, está atento e encantado com a projeção do pai, comentando que ele aparece muitas vezes na televisão e no Youtube, e tecendo sonhos de “ser youtuber, quando for mais velho”.

 

Hugo Bentes nasceu em Serpa, no dia 11 de outubro de 1977. E mora há 11 anos em Beja. Por volta dos 13 anos viveu uma temporada em Lisboa, na qualidade de atleta do Sport Lisboa Benfica, o que “correspondeu a uma época e meia”.

 

Mas não gostou da experiência, e o jovem sportinguista voltou a casa para retomar os estudos e jogar no “Despertar”. Concluiu o 12.º ano em Serpa e, mais tarde, tirou o curso de Produção Musical, na Escola de Áudio em Lisboa. Entretanto, porque foi sempre muito independente, diz, começou a trabalhar muito cedo “no que havia: restauração, obras”.

 

Teve uma infância boa, e foi livre na então vila raiana. “Tinha amigos, tinha brincadeiras, e um irmão mais novo. Fiz sempre desporto e estive desde muito cedo ligado ao cante”, paixão e arte que estão há muito entranhadas na família. “Quando estive no grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, salvo o erro era a quarta geração de grupo coral”, comenta. O irmão ainda integra o grupo.

 

Ouviu as primeiras modas nas tabernas, o avô tinha uma, onde os grupos de cantadores amadores se reuniam para ensaiar, transmitindo o saber aos mais novos ao longo dos anos. “Havia sempre tertúlias, a que eu ia com os meus tios”, recorda.

 

Para explicar que foi nesses espaços, que reuniam os homens depois do trabalho, que ainda miúdo aprendeu “a gostar do cante alentejano e a cantar o cante alentejano, a gostar do Baixo Alentejo e do seu povo, das nossas raízes”. Também aprendeu a dar valor aos mais velhos, escutando-lhe as histórias, às vezes contadas “em jeito de anedota para ficarem mais ligeiras”, porque falavam de vidas reais em tempos difíceis.

 

“Percebi o quanto eles nos podem transmitir, o quanto podemos aprender com eles se nos dispusermos a isso”, refere, afirmando “foi uma experiência muito gratificante para mim”.

 

UMA VIDA MUITO PREENCHIDA 

A ligação quase umbilical ao Baixo Alentejo fixou-o sempre no território. “Houve alturas em que pensei sair porque não havia muito trabalho. Até emigrar, pois estava ali num limbo. Mas cheguei à conclusão que a nossa terra tem muito para dar e nós a ela, independentemente de se situar na margem esquerda ou direita do Guadiana. Prefiro viver aqui do que em qualquer outro lugar.”

 

Hugo Bentes é funcionário público. Trabalha na Câmara de Serpa, na divisão de Cultura e Património, que integra a “parte de programação e produção”.  Vai coordenando a função com a sua recente vida de ator, o que significa fazer horas extras para depois descontar, gozar as férias quando é necessário, e quando se trata de um projeto cinematográfico que requer três meses de dedicação tira licença sem vencimento.

 

Esteve 12 anos na Musibéria como responsável técnico do estúdio, tendo gravado cerca de 60 álbuns, de António Chainho a Custódio Castelo. A determinada altura também trabalhou com a companhia profissional de teatro, Baal 17, em projetos de luz e som.

 

Continua no projeto musical “Os Alentejanos”, um grupo composto por quatro elementos de Serpa: “quatro vozes, acordeão, baixo acústico e guitarra clássica, mas damos primazia às vozes”, explica. Todos têm experiência no cante e em outras áreas musicais, sendo o reportório constituído por temas recolhidos do Cancioneiro Alentejano e originais de Armando Torrão, que integra o quarteto com espetáculos em Portugal e no estrangeiro. Propõem-se cantar e divulgar o cante “para que não se perca” na passagem de gerações, “e possa motivar” os jovens de hoje a integrar os grupos corais, constituídos por uma maioria com idade muito avançada. Sobre a polémica à volta do que é o verdadeiro cante, é perentório: “O que foi submetido a Património Imaterial da Humanidade foi o cante à capela, só as vozes. Mas o cante alentejano não era só isso. Também havia os bailes que eram acompanhados com a guitarra campaniça ou com o acordeão. Portanto, na minha opinião, o cante alentejano não é só o cante à capela, mas também o cante acompanhado com instrumentos.”

 

OUTROS TRABALHOS NO CINEMA 

Entre os filmes “Raiva” e “A Noiva”, Hugo Bentes teve uma pequena participação na comédia romântica de Vicente do Ó, “Quero-te tanto”. Volta ao género “dramático” em “Great Yarmouth – Provisional Figure”, Figuras Provisórias em português, de Marco Martins, que retrata o trabalho dos portugueses na indústria aviária de uma cidade britânica na costa leste de Inglaterra, em condições absolutamente desumanas.

 

O filme teve estreia mundial no passado dia 21 de setembro, no Festival de San Sebastian. “Desempenhei o papel de um emigrante que vai trabalhar para o Reino Unido, num matadouro de perus, que é para onde vão normalmente os portugueses. Foi muito duro, mesmo fisicamente. Para fazer cenas foi complicado”, desabafa. O seu personagem morre, à semelhança do que aconteceu com António Palma, em “Raiva”.

 

Entretanto, chegou-lhe o convite para um novo projeto cinematográfico. Fez o casting para integrar o elenco e passou.

 

Já está a preparar uma nova personagem, que implica todo um ritual de não distração: “O refúgio para estudar o guião e tentar construir o personagem à medida que as leituras se sucedem, procurando visualizar o ambiente que esta está a viver.” Dá conta que o argumento é de Ivo Ferreira e Hélder Beja e chama-se “Projeto Global”. Mais uma ficção inspirada em acontecimentos reais, com as Forças Populares 25 de Abril (FP 25) no centro da narrativa. Bentes diz que não pode revelar muita coisa, além de que o seu personagem “é capitão”. O realizador quer estrear em 2023, pelo que vão começar a filmar já em janeiro.

 

UM FUTURO PARA O BAIXO ALENTEJO 

“O Governo Central precisa começar a olhar para a região como ela merece, coisa que não tem acontecido”, comenta Hugo Bentes a propósito do ciclo de despovoamento/envelhecimento do Baixo Alentejo e das infraestruturas que não foram terminadas enquanto outras estão subaproveitadas.

 

“Até agora é como se o Baixo Alentejo fosse uma parte do Alentejo. Para o nossos governantes o Alentejo é só até Évora, e o nosso território é só paisagem. Exibem a barragem do Alqueva como grande bandeira de obra executada no Alentejo, mas depois o Baixo Alentejo fica sempre esquecido”.

 

Defende que o futuro “poderia passar por uma regionalização” capaz de desenvolver novas infraestruturas e dar utilidade às existentes, e de criar condições para fixar as novas gerações, que saem das suas cidades e vilas baixo-alentejanas para frequentar o ensino superior e raramente regressam ao território.

 

É preciso trabalhar para reverter este movimento, alerta, concluindo: “Somos um país pequeno, todas as regiões têm os seus problemas. Mas aqui no Baixo Alentejo, acho que somos bastantes descriminados a nível de serviços: estradas, na saúde e na cultura.”

 

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