Diário do Alentejo

Coronavírus
Opinião

Coronavírus

Luís Godinho

15 de março 2020 - 11:50

Com medidas de contenção robustas como aquelas de que damos conta nesta edição, e que incluem o cancelamento de eventos sociais e desportivos e o condicionamento das atividades escolares, as autoridades de saúde pública procuram ganhar tempo à propagação do novo coronavírus. É tempo precioso, não tanto na perspetiva de surgimento de uma vacina, algo improvável no curto prazo, mas porque permite uma melhor capacitação dos serviços para uma resposta ao previsível aumento do número de infeções. As prioridades da Direção-Geral de Saúde para esta fase de evolução da epidemia estão definidas: “Conter, conter, conter”. E, por isso, sem dramas nem alarmismos inúteis, faz todo o sentido cancelar eventos a que habitualmente assistem milhares de pessoas (como sucedeu em Ourique, Castro Verde ou Mértola), manter “exclusivamente as atividades letivas obrigatórias, suspendendo todas as demais” (como fez o Instituto Politécnico de Beja), cancelar a Volta ao Alentejo em Bicicleta, anular visitas de estudos e deixar lá mais para o verão a compensação por aulas perdidas, ainda que o calendário de exames escolares tenha de ser alterado. Conter, conter, conter.

Como já aqui escrevi, não sendo substancialmente diferente do que sucede nos surtos de gripe, para os quais existem vacinas e que, apesar disso, todos os anos infetam milhares de cidadãos e originam várias de mortes (cerca de 3 500 por ano, em Portugal), a epidemia provocada pelo novo coronavírus representa um enorme desafio ao Serviço Nacional de Saúde. À fase de contenção alargada em que nos encontramos, em que a origem da esmagadora maioria dos casos diagnosticados está identificada, tal como as cadeias de transmissão secundárias, poderá seguir-se uma fase de mitigação, caso de verifique o espectável o aumento do número de contágios. Os pontos críticos de resposta do SNS também estão identificados: limitação de meios e recursos para a gestão apropriada dos casos, desconhecimento e receio por parte dos profissionais de saúde, limitação de capacidade de tratamento de doentes e limitação da capacidade de resposta das linhas telefónicas especializadas (Saúde 24 e Linha de Apoio ao Médico). Exigem-se medidas eficazes, num País mais habituado ao desenrascanço, sob pena de o sistema poder colapsar.


Mais do que a agressividade de um vírus, que por ser novo ainda é desconhecido da comunidade científica, o maior risco que presentemente se antecipa desta epidemia é o do alarme social que possa provocar, resultado de receios infundados, desinformação ou, sobretudo, falta de resposta dos serviços de saúde. A má notícia, outra, é parecer desde já evidente alguma impreparação da diretora-geral de Saúde para “comandar as tropas” neste período de crise. De uma diretora-geral esperam-se palavras tranquilizadoras, não que desaconselhe a corrida aos supermercados porque, conforme diz, “quanto mais não seja, que se recorra à horta do vizinho”. Ficamos descansados

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