Diário do Alentejo

Uma serra na fronteira
Opinião

Uma serra na fronteira

Hélder Guerreiro, gestor

15 de janeiro 2020 - 15:25

No dia 12 de dezembro, por razões profissionais, desloquei-me a Alcoutim para uma reunião com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve. O assunto não podia ser mais apropriado: como é que estas duas regiões podem cooperar a partir da sua fronteira? Por causa disso, e não só, decidi fazer o caminho entre Alcoutim e Odemira sempre pela fronteira. Uma fronteira que é uma (ou várias) serra(s)! A viagem, que durou cerca de três horas, foi algo próximo do alucinante. Pela beleza da paisagem, pela força que a paisagem transmite, mas pela tranquilidade e segurança de que é feita. É uma espécie de mistura de afirmação com consciência de ser.


Esta viagem fez-me lembrar a que fiz na fronteira norte do Baixo Alentejo quando fui de Évora a Barrancos. A diferença é abismal, mas aquela mesma força da tranquilidade está presente. É a mesma sensação de que somos minúsculos perante a força de um local. É a força cultural do que nos envolve que é a génese dessa tranquilidade. É mesmo aquela consciência de ser. Ou, se quiserem, de um local que sabe de onde vem. Voltando à serra, dizem que quem lá vive diz que aquele é um “sítio que não leva nome. Quando de lá se sai ou se vai ao Algarve ou se vai ao Baixo Alentejo”. Ali é apenas a serra. É claro que a viagem, esta em particular, também foi uma viagem pela minha casa. Sim, eu também sou da serra. A minha família é descendente dos moradores de um monte perdido no interior do concelho de Odemira, o monte do Tojalão. Quando se reúne a família alargada, juntamos mais de 100 pessoas, que tanto vivem no Algarve, como no Baixo Alentejo, como junto ao Tejo.


Quem fizer, como eu fiz, o trajeto desde Alcoutim, passando por Martim Longo, por Dogueno, por São Barnabé, por São Marcos da Serra, Nave Redonda, Saboia e, finalmente, Odemira, fica com a sensação de que esteve num mundo à parte. Este tempo de viagem e este mundo à parte permitiu-me pensar nas várias tendências e/ou desafios de futuro, sobre os quais queria escrever nestas minhas crónicas. Uma delas, da qual queria falar hoje, é o acesso equitativo às oportunidades num mundo liberal, logo, fortemente marcado por uma certa ideia de liberdade de mercado.

 

Estou, naturalmente, a falar do desafio que o sistema democrático enfrenta e continuará a enfrentar nos próximos anos, em todos os locais do mundo. A “sorte” da democracia (liberdade) dependerá muito da forma como valorizarmos o trabalho, como fizermos a redistribuição da riqueza e de como renovarmos as condições para todos poderem ter oportunidades de não permanecerem pobres. Os indicadores globais vêm alertando para o alargamento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres, mas, fundamentalmente, para a degradação da classe média, o que faz com que os pobres sejam cada vez mais e que a riqueza se concentre cada vez mais em menos pessoas.

 

Deixar para trás o “grosso do pelotão” tem vindo a criar instabilidades globais que se vêm constituindo como os principais motivos para movimentos como os “coletes amarelos” em França e que são herdeiros dos movimentos, dos quais já nos vamos esquecendo, de jovens europeus que não estudavam nem trabalhavam. Muitos deles, afinal, trabalhavam, mas de forma precária e por isso continuavam pobres e sem perspetivas de futuro. É, por isso, um dos grandes desafios do nosso futuro, a forma como faremos (ou não) a redistribuição da riqueza. Olhando para esta serra que é fronteira, pergunto-me como é que faremos para garantir, às nossas gentes, as mesmas oportunidades de acesso à saúde, justiça e educação? Como é que as nossas crianças e jovens podem ter o mesmo acesso à educação que as crianças e jovens de perto do Tejo? Como é que os nossos jovens podem escolher, quando chegarem ao secundário, o curso de formação profissional e/ou a área de estudo que quiserem e, mesmo assim, continuarem a viver nesta serra que é fronteira e que é a casa deles?

 

E este, a educação para cada um (sem esquecer que tem de ser para todos), é só o primeiro dos degraus que teremos de subir, mesmo sem a garantia de que não ficaremos para trás. Só assim, garantindo educação, poderemos ter a oportunidade de não virmos a engrossar as fileiras dos descontentes com este mundo aberto. Voltando à memória da viagem pela serra, vejo os matagais de esteva e tojo a perder de vista, o montado a recuperar de mais um incêndio, os eucaliptais novos que cobrem os serros mais altos e lembrei-me da feira do cogumelo e do medronho de São Barnabé. Lembro os montes de pedra e os corrais redondos, da mesma pedra, que já foram muros apiários e que já tiveram cabras Quando cheguei a casa a Paula já preparava as prendas de Natal onde a base eram as alconcoras das Amoreiras-Gare, a aguardente de medronho, os doces da “Alma da Nossa Gente” e os bombons de aguardente de medronho da associação Arbutos. Tudo produtos da serra, devidamente valorizados tanto em termos de imagem como economicamente.


Dirão que não é suficiente para garantirmos que temos recursos e/ou argumentos para darmos as tais oportunidades às nossas gentes. Mas eu diria que este caminho de valorização, que tantos já fizeram, também é um dos degraus que tínhamos de fazer (já nem nos lembramos como era vendida, sem valorização nenhuma, a nossa aguardente de medronho). Mas, chegar a casa, e partir, na boca, aquela “película” grossa de chocolate deixando que aquela invasão fresca de aguardente nos encha a boca, é, para além de fantástico, uma forma de apreciarmos a serra. Esse mundo verde que não leva nome, simplesmente, é a serra.

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