Diário do Alentejo

Leonel Borrela, guardião da Beja de Mariana
Opinião

Leonel Borrela, guardião da Beja de Mariana

Miguel Rego, historiador

27 de novembro 2019 - 16:25

Cada cidade tem o seu guardião. Alguém que conhece as ruas nos seus mais recônditos pormenores. Os seus personagens nos mais desditosos dizeres e fazeres. As suas historietas e episódios, no que de mais frívolo ou heroico tem cada um deles.  Cada cidade tem o seu guardião. Aquele que guarda os silêncios dos tempos e os sabe transportar entre os caminhos da imaginação e os versos feridos da realidade. Aquele que constrói a história de cada rua nas palavras que recolhe entre as pedras da calçada, entre os vasos de sardinheiras pendurados entre telhados e varandas, entre os frágeis canteiros de miosótis em jardins onde os coretos embalam de ausência os domingos de manhã.

 

Cada cidade tem o seu guardião. Vestindo de aguarelas e penas, nas tardes de qualquer verão incendiado, a igreja amarelecida no azulejo retocado; dando forma ao varandim da saudade com um lápis de carvão 6B; buscando na paleta a árvore vestida de asas de pardais ou de frutas secas reinventadas. Cada cidade tem o seu guardião. Aquele que traz consigo cada pétala de uma flor deitada no balde do lixo ou uma outra enganada pelo beijo seco da tarde. Aquele que conhece a janela por onde Mariana imaginava o vulto fugaz do seu amado, que afinal é, tão somente, aquele que decifra as pedras de um império desaparecido e de cuja presença só com as pedras sabe dialogar, porque elas ouvem-no. Aquele que percebe as formas das nuvens encavalitadas no respirar certo do vento no mês de maio. Aquele que conhece cada porta, cada ventana, cada poial e as sabe representar na tela, nas palavras, nos escritos que alimentam o pasmo banal dos nossos dias.


Cada cidade tem o seu guardião, porque qualquer cidade tem um guardião.  Mas nem todas as cidades sabem guardar em si o seu guardião. Nem todas as cidades sabem respeitar os cabelos brancos do tempo e guardar de si o que de mais cristalino e imenso eles teriam aos olhos do futuro.


Nem todas as cidades sabem ouvir o seu guardião, escolher os caminhos francos e abrir as portas a quem está dentro de si, na sua polis. Dizem que santos da casa não fazem milagres, mas os guardiões da casa ajudam a protegê-la. Ajudam a salvaguardar, a preservar, a amar a sua cidade. E porque nem todas as cidades merecem o seu guardião, o seu cofre de memórias vividas, embaladas no toar físico e gentil dos homens de colete e chapéu que invadem, com petulância, um qualquer jardim silenciado, nem todas as cidades se vergam a tocar a terra que tem aos seus pés e que alimenta a imaginação e a utopia que qualquer guardião sabe criar. E essas são, por isso, cidades vazias, empobrecidas de razão e de sonhos.

 

É por isso que há cidades que não são mais que casas após casas, ruas descoloridas, mesmo que de branco vestidas, que perdem definitivamente a alma na ausência do seu guardião.  Talvez por isso, Beja precisasse de olhar mais para si e para o seu guardião, que já não tem, mas que respira em cada palavra que nos deixou, em cada quadro com que nos brindou, em cada olhar que alimentou, em cada gesto que gravou fundo na parede do tempo desta cidade.

 

E há sempre um guardião que prefere a sua cidade a qualquer outra onde esteve, ou não esteve. Que prefere a sua cidade àquela que o viu acordar do primeiro sono. É talvez por isso que Leonel Borrela será sempre o guardião desta cidade. A cidade da Mariana que, a par de uma Hermínia, ele sempre amou profundamente. Que ajudou a redescobrir e a humanizar. Mais do que qualquer outra cidade. Mais do que qualquer outro recanto de terra que os seus quadros souberam reinventar e recriar. Apesar de tudo, esta cidade terá sempre no Borrela o seu guardião, mesmo que o não queira… Mesmo que o não queiramos.

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