Diário do Alentejo

A minha escola é muito melhor do que a tua
Opinião

A minha escola é muito melhor do que a tua

Vítor Encarnação

08 de novembro 2026 - 08:00

A classificação das escolas, vulgo ranking para os mais modernaços, é um entrouxo. Para quem faz da docência a sua vida, às vezes uma vida inteira, essa lista é um embuste e uma falta de respeito. Essa ordenação não faz mais do que concluir o óbvio: que sendo a educação um direito universal, ela está sujeita, como tudo nesta vida, dirão os mais racionais, ou cínicos, às vicissitudes da existência de cada um. Desenrasquem-se, pois. Todos os anos temos de levar com esta mania ignóbil de querer comparar o incomparável. As televisões abrem os telejornais com a extraordinária notícia de que os colégios privados ficaram novamente à frente das escolas públicas e de que as primeiras trinta e sete escolas são todas privadas, meus ricos meninos e meus abnegados professores, nada que se compare com esses alunos preguiçosos e indisciplinados e esses malandros dos professores que só pensam em fazer greves e meter atestados. Os jornais dizem-nos que para verificarmos em que lugar ficou a nossa escola é só irmos descendo o dedo na tabela classificativa, é só irmos entrando em subúrbios, em bairros pobres, em regiões isoladas, em escolas que fazem de pai, de mãe, de colo, de psicólogo, de amigo, de cozinha, de casa. Experimentemos trocar o Grande Colégio Universal, do Porto, pela Escola Secundária D. Manuel Martins, de Setúbal. Transplantem-se os alunos e as turmas e as famílias e as casas e as condições económicas. Vão uns e vêm outros. Quando os professores abnegados e competentes se vissem confrontados com turmas e salas de aula que são um decalque puro e duro de um tecido social complexo é que nós íamos ver. Essa lista é um catálogo para vender um produto que apenas alguns podem comprar. Mas era escusado fazer pouco dos outros.

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