Diário do Alentejo

Efervescência e dormência
Opinião

Efervescência e dormência

Vítor Encarnação

01 de novembro 2026 - 08:00

Os alunos têm entre doze e catorze anos, não conseguem estar sentados nas cadeiras, nem direitos, nem tortos, viram-se para trás e para o lado, lá à frente onde eu estou pouco há de interessante, apenas eu a falar, apenas um homem com um manual escolar na mão, aberto, talvez na página trinta e sete, ou na sessenta, isso pouco importa para quem não me escuta, um homem quase perdido a tentar contrariar um destino incontornável, um projetor a tentar cativar os olhos e a responsabilidade, oferta da editora, manual interativo, livro de exercícios e outros apêndices, um projetor a jorrar sons e cor, que bonita é a nova pedagogia, talvez isso capte a atenção, a minha voz a bater no burburinho, a fazer ricochete e a bater-me dentro da cabeça, ali mesmo ao lado do cansaço e da dor. Ao lado e atrás é que está tudo, as conversas sobre cromos da bola, trotinetes e o banho após a aula de educação física, os papelinhos que voam, as provocações e o gozo e a vergonha por causa do banho após a aula de educação física. A sala de aula é um grito a várias vozes. Os alunos têm entre quinze e dezoito anos, sentam-se nas cadeiras e ali ficam, direitos ou tortos, não se viram para lado nenhum, fazem de conta que me veem, mas eu vejo que os seus olhos estão virados para dentro, o projetor vai debitando dispositivos, tabelas e definições, pergunto se há dúvidas e ninguém responde, fico sem saber se perceberam, sequer se me ouviram perguntar, o projetor tenta salvar-me, agora é uma canção, ninguém acha nada da letra, digo-lhes que o poema é bonito, mas o poema morre por falta de interesse ainda eu não acabei de dizer o nome de quem o escreveu, a sala de aula cheira a tédio. Demoramos cinquenta minutos a atravessar este deserto.

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