Diário do Alentejo

Morreu  o Caramba
Opinião

Morreu o Caramba

José Saúde

01 de novembro 2026 - 08:00

Morreu o Caramba no passado dia 27 e contava 87 anos de vida. O antigo futebolista nasceu na pátria do “País das uvas”, aliás, um solo onde os vinhedos, carinhosamente trabalhados por gentes que recolhiam ganhos monetários numa faina sazonal que se confinava a sustentar casas cheias de nada, eram exímias armas que levavam o povo para a cultura do famoso líquido dos deuses e de onde se extraíam as mais-valias para uma plebe que suplicava trabalho. Centremos as nossas ponderações sobre o saudoso Francisco José Galinha Caramba, um ser humano que nasceu em Vidigueira a 9 de setembro de 1939. Os primeiros chutos na bola foram dados por terras onde Vasco da Gama deambulou. Cresceu ouvindo o fermentar do fluido das talhas e divertindo-se a dar chutos numa esfera saltitante que o enchia de prazer. Seguiu-se uma inserção no grémio da localidade que o viu nascer, o Clube de Futebol Vasco da Gama, agremiação orientada então pelo credenciado Gil, um craque que motivou vastíssimos elogios enquanto jogador no 11 do afamado Luso de Beja. Caramba tinha 15 anos e o mister colocou-o na equipa principal. Depois veio a tropa e a subsequente mobilização para Angola. Por terras angolanas regista-se a sua passagem pelo emblema da Vila Clotilde, conjunto que disputava o campeonato da primeira divisão nacional. Missão cumprida e ei-lo de regresso ao Alentejo. Aconteceu que a Vila Clotilde, filial do Barreirense, indicou-o ao clube da margem sul do Tejo, só que pelo meio da hipotética viagem surgiu um convite do Juventude de Évora, o qual levou o vidigueirense a assinar contrato com a agremiação do Pátio da Salema. Após a sua estadia ao serviço dos eborenses, o Desportivo de Beja apresentou-lhe uma proposta que recebeu nota positiva. Numa auto-observação sobre o ajuste da transferência, Caramba recordava essa passagem de testemunho: “Vim para Beja a troco de um jogo que se realizou em Évora, mas com as despesas por conta do Desportivo. Nessa altura não havia ‘luvas’ para ninguém, o jogo realizou-se sendo que o custo da minha transferência foi o dinheiro gasto em combustível”. No emblema da velha Pax Júlia militavam jogadores de craveira. Exercitando, na ocasião, o seu brilhante raciocínio, Caramba mencionava, com um brilho nos olhos, essas fulgentes temporadas: “Representei o Desportivo durante oito épocas. Convivi com excelentes jogadores. O Palma, Pena, Zé Manel, Jesus, Tino, Dionísio, Silvino, Suarez e tantos outros”. Seguiu-se o Despertar numa fase terminal de carreira. No seu pecúlio futebolístico existe uma história hilariante, a qual fazia questão em contar na primeira pessoa. “Quando jogava no Juventude fizemos um jogo em Almada, mas quando estávamos no período de aquecimento encontrava-me a rematar à baliza e acertei em cheio num polícia, mas o homem meteu na cabeça que o tinha feito de propósito e deu-me ordem de prisão. Resultado: o jogo começou com 20 minutos de atraso e eu não fui preso”. Agora, partiu para a derradeira viagem sem regresso, sendo a sua última morada o cemitério de Vidigueira. Descansa em paz!

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