O Sol mudou de vida, desceu o hemisfério, foi incendiar outras bandas e a falta do calor do seu corpo arrefeceu a terra. Foram dias e noites de brasa abraçados, colados um ao outro, ouro telúrico sob azul cerúleo. Agora, essa paixão férvida acabou, esse amor de verão acabou. Os olhos da luz veem menos e as nuvens põem cataratas na claridade do horizonte. O outono beijou a despedida das andorinhas e vai caindo das árvores, ainda lentamente, mais depressa quando chegar o vento e talvez a chuva. Dantes a chuva era mais amiga do vento, vinham muitas vezes juntos, lembro-me bem. Eu também vou mudar de vida, mas não muito, já há muito tempo que deixei de querer ser Sol, que mania que nós temos de querer brilhar sem termos um céu onde nos agarrarmos. Transformo-me apenas o necessário para ficar mais feliz, ao contrário das andorinhas gosto mais de migrar para o cinzento, para o frio, para os dias pequenos, se chover tanto melhor, se nevasse tão bom que seria. Divido-me em duas bebidas: cerveja e vinho tinto. A cerveja, espuma do Sol, o meu amor de verão, fugiu do frio, foi como as andorinhas à procura de lugares quentes. O vinho tinto chega, veste-se de vidro, solta-se a rolha da espera, vem com o silêncio das tardes, instala-se na quietude das noites, bebe-se à mesa do outono. O vinho novo há de chegar, os homens hão de abrir a boca das talhas, dessa bocas sairão palavras líquidas e essas palavras hão de entrar na minha boca, traduzindo-me a terra, explicando-me o Sul, relembrando-me a saudade dos que partiram e comigo beberam vinho tinto. Os que eu amei e comigo bebiam vinho tinto foram andorinhas que nunca mais voltaram. Não me dá jeito beber vinho tinto quando os dias são demasiado grandes. Quando mudar a hora, começo a beber vinho tinto.