Diário do Alentejo

Manda quem pode, obedece quem deve
Opinião

Manda quem pode, obedece quem deve

Vítor Encarnação

18 de outubro 2026 - 08:00

Eu bem tento aplicar a minha autoridade através do diálogo, mas os alunos não compreendem, dizia o professor na sala de professores a quem tinha paciência para o ouvir. Eu tento mostrar que o meu poder não tem de ser baseado em medo e punição, que o meu ofício é formar pessoas que se vão assumindo como indivíduos com identidade própria, capazes de dar a sua opinião de uma forma serena e segura. Explico-lhes os critérios de avaliação, digo-lhes que não pode haver avaliação sem o conhecimento prévio dos critérios que a ela conduzem, mostro que as atitudes, os relacionamentos interpessoais e os comportamentos respeitosos são fundamentais para um harmonioso processo de crescimento. Esclareço que os alunos têm uma função e eu tenho outra bem distinta, podemos ser amigos, mas não temos de ser amigos, não podemos ser amigos se essa relação inquinar a relação de ensino-aprendizagem e ela resvalar para situações de facilitismo, ofensas ou caos na sala de aula. Fundamento, dou exemplos disto tudo, não levanto a voz, não ponho ninguém na rua, acredito que isso não resolve nada, os meus colegas olham para mim de lado e abanam a cabeça, mas eu tenho essa convicção de que assim há de ser para sempre, chamo o aluno que prevaricou, sento-o ao meu lado, falamos um bocadinho, arvoro-me em mediador de conflitos, parece que está resolvido, mas na verdade os alunos não percebem esta maneira de ser professor. Os alunos já têm interiorizado que a autoridade tem de ser brusca e bruta, tem de ter voz grossa, se for preciso é violenta. O barulho continua, as instruções não são acatadas e eu preparo a minha defesa infalível: grito e dou um murro na mesa. O silêncio instala-se.  Manda quem pode, obedece quem deve, é este o lema que persiste.

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