Os meus sobrinhos sentem uma certa vaidade por eu fazer anos no mesmo dia do Cristiano Ronaldo. Não foi contentamento menor quando se aperceberam que havia entre nós essa relação cósmica tão chegada. Apesar de terem dificuldade em calcular o que são duas décadas de diferença, eles sabiam que os astros se tinham alinhado para que o seu tio e o prodígio da bola soprassem as velas no mesmo dia. Não sabiam eles que no dia em que o Cristiano Ronaldo nasceu, num campo de terra batida do Estádio Universitário de onde se avistava, imponente, o Estádio de Alvalade, - mais um traço que nos une ao mesmo destino - o seu tio, jogador da poética equipa da Faculdade de Letras de Lisboa, estava a ser massacrado pela pujante equipa do Instituto Superior de Agronomia. Nessa mesma noite, enquanto a Dona Dolores e as manas velavam pelo caçula, na Casa do Alentejo comemoravam-se os vinte anos de um alentejano com saudades de casa. De velas em velas, de bolo em bolo, corria o ano de 1993, o puto maravilha estava a dar os primeiros passos no desporto-rei no Clube de Futebol Andorinha e já o tio jogava nesse fulgurante e disputadíssimo campeonato do Inatel, nos galácticos da Associação Cultural e Juvenil Palheirense, ainda o Real Madrid não cunhara esse conceito de supremacia absoluta. Como é que isso perpassou da Aldeia de Palheiros até Madrid é um mistério que continua por desvendar. O Cristiano jogava no Manchester e o tio ia jogar à Corte Gafo; o Cristiano jogava no Real Madrid e o tio ia jogar ao Malavado. Até que chegou o dia em que o tio abandonou a carreira. Tinha finalmente chegado aos dez golos. Foram anos e anos de muito sacrifício. Ainda há quem lhe chame ego. Meti-me no Seat Marbella, era já de madrugada quando cheguei a Madrid.