A porta da rua não deixa entrar palavras. Tudo o que tinham para dizer foi dito antes de entrarem em casa, no trabalho, no café, com os amigos, riram muito, parecem sempre tão felizes, os outros acham que eles são imensamente felizes, mas não sabem que eles têm uma porta de alumínio que lhes barra as palavras assim que entram em casa. Houve tempo, quando começaram a aparecer os sinais de silêncio e ausência, em que entravam umas e já não entravam outras, os poemas foram os primeiros a dormir na rua; depois foram as expressões bonitas que não passaram do tapete onde se limpam os pés; a seguir já só entravam em casa frases sobre seguros de automóveis e imposto sobre o rendimento das pessoas singulares; e por fim, já nem os bons-dias, nem as boas-noites. Restou um ou outro grito. Nesta casa não há palavras, nem sílabas, nem ditongos, nem letras, muito menos exclamações, ou interrogações. Às vezes, a meio da noite, ouve-se, lá ao fundo, atrás de uma das trezentas paredes, uma breve interjeição de dor. A casa tem paredes de mudez, o silêncio ergue uma parede e depois outra, a cozinha tem uma em cima da mesa, a sala tem outra a dividir o sofá, o quarto tem uma outra a meio da cama. Eles, depois de sacudirem as palavras da boca, entram e começam a erguer paredes. São novos ainda, aparentemente não haveria razão para tanta indiferença, mas a intrincada vida a dois arranja portas por onde só entram corpos que arrefecem. A pele e a carne têm paredes à frente das mãos e dos olhos. São imóveis, como uma estante, ou uma cadeira, ou uma janela fechada, ou um candeeiro apagado. Sentam-se e assim ficam, calam-se e assim ficam, deitam-se e assim ficam. Quando lhes falta o ar, quando as paredes os comprimem contra a tristeza, mudam os móveis de sítio.