Diário do Alentejo

Um homem e uma criança
Opinião

Um homem e uma criança

Vítor Encarnação

27 de setembro 2026 - 08:00

A criança cresceu, o homem envelheceu. O tempo faz e desfaz, dá e tira, acrescenta e subtrai, ampara e abandona. Impávido, sobranceiro, resoluto, o tempo executou o seu trabalho, nunca parou. No que ele tem a fazer é escusado alguém intrometer-se; nós bem que tentamos, mas é inútil. O tempo destrói todas as artimanhas que lhe põem à frente. A criança habituou-se a ver o homem e o homem era novo, pujante, o rosto liso, as mãos fortes, durante alguns anos o homem manteve-se inalterado. Há uma altura em que parece que o tempo congela as pessoas, mas depois quando as descongela, tudo se esvai. O homem habitou-se a ver a criança e a criança era pequena, alegre, o rosto suave, as mãos frágeis, durante alguns anos a criança não mudou profundamente. Há uma altura em que parece que o tempo congela as pessoas, mas depois quando as descongela, tudo se constrói. Passaram trinta anos, o tempo tirou um homem de dentro da casca da criança e tirou outro homem de dentro da pele de um outro que já existia. Nunca mais se tinham visto, viviam longe, geografias diferentes, línguas diferentes, destinos diferentes. A memória serve para manter vivo um rosto, uma voz, uma idade, mas não há nada que destape tudo o que está para lá da memória, o que está para além dela é apenas imaginação. Quando a criança que já não é, viu o homem e o homem, que já é muito menos do que era, viu a criança, o brilho dos olhos de cada um acendeu-se com o que a lembrança conseguiu guardar, os pequenos laivos dos traços essenciais que as pessoas carregam a vida toda. Há traços que se mantêm desde o berço até à cova, um jeito de estar, a forma de olhar, o nosso andar. Eles já não são o que eram, hoje são outra coisa. Acharam estranho, mas a vida é mesmo assim. 

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