Diário do Alentejo

Bola de trapos
Opinião

Bola de trapos

José Saúde

27 de setembro 2026 - 08:00

Façamos um itinerário pelo passado e avidamente recordemos. Assim, num indelével sentimento em que a dócil melancolia esbarra numa mente que usufrui a possibilidade em recordar imagens de outrora que se multiplicaram em rotinas desportivos de crianças alinhadas com o prazer do jogo, revejo o normal habitat da miudagem e a sua frenética luta em despiques com a afamada bola de trapos. Somos originários desses obsoletos tempos. Recordo, com saudade imensa, a algazarra dos rapazes de rua, assim como os saudáveis desafios em terrenos vadios, agora transfigurados em betão armado e logo à tona da memória aparecem reproduções das manhãs domingueiras que envolviam jogatanas de futebol, sendo as balizas demarcadas com duas pedras num campo substancialmente irregular. Naquele tempo as bolas de borracha eram escassas e por vezes lá aparecia o menino mimado, filho de gentes da alta sociedade, que presunçosamente metia inveja ao resto da moçada, com uma bola de borracha amarela, marca “Pirelle”, debaixo do braço. A redondinha era sinónimo de excêntricos prazeres e sobretudo de entrega dos miúdos ao duelo. O menino, que não jogava patavina, mas tinha que fazer parte infalível de uma das equipas porque era o dono da bola, cedo se apercebia que a raia miúda não lhe passava a redondinha, toca a interromper o entusiasmante dérbi da pequenada e de rabo alçado lá fugia, que nem uma flecha, rumo à sua mansão. A ralé, pouco importunada com a leviana atitude do garoto, jogava mãos à bola de trapos e o jogo prosseguia. Aliás, as oportunidades em dar uns chutos numa esfera de borracha eram, nesses tempos, coisa rara e de inevitável desejo. A bola de trapos, feita com uma meia roubada à mãe, afigurava-se como uma preciosidade que a ralé juvenil muito se regozijava. Lembro, também, as bexigas de porco recolhidas pela malta em épocas das matanças no matadouro da terra. Tudo isto é conversa do passado, é verdade, mas um passado em que despertaram craques que percorreram enormes percursos futebolísticos quer em termos nacionais quer internacionais. Hoje, olhamos para a realidade presente e prontamente damos conta que tudo desliza para o mundo da facilidade. As crianças de agora têm outros mecanismos competitivos, vestem equipamentos de marca, calçam botas de qualidade, as bolas são excecionais, jogam em campos relvados, ou sintéticos, e têm um público, geralmente familiar, a puxar pela equipa. Nós jogávamos em agrestes terreiros infestados com ervas daninhas onde residiam cacos de vidro, sendo que alguns dos nossos companheiros jogavam descalços, os fatos de treino era a roupa domingueira, para quem a tinha, não havia assistência aos jogos e fugíamos das forças da ordem sempre que o polícia de giro detetasse as nossas presenças. Bem-haja a conquista da liberdade e tudo quanto o progresso permitiu. E é justamente nesta onda de narrativas que vou, por ora, elaborando textos sobre uma bola de trapos cujo pretexto é trazer à estampa inolvidáveis recordações.

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