Diário do Alentejo

Santo ISP
Opinião

Santo ISP

Rodrigo Ramos

27 de setembro 2026 - 08:00

Deu-me, há dias, para um expansionismo insensato que a carteira, se o caso lhe tivesse sido posto à consideração, nunca aprovaria: fui de carro buscar uma nova botija de gás. A imprudência valeu-me amargos dissabores, não apenas por ver o meu subsídio de férias diluído no ISP (imposto sobre os produtos petrolíferos e energéticos), mas também pelo nevoeiro carregado, a pairar pesadamente num novelo sombrio de monóxido de carbono, óxido de azoto e dióxido de enxofre, que me asfixiava a consciência. E parecia-me senão que todos olhavam com desdém para este burguês soturno, um agressor ambiental do novo mundo eletrificado. – Mas, ó senhores, se eu já uso uma palhinha de papel! É que eu bebo por uma palhinha de papel! – E se tal não me qualifica nem me redime aos olhos das divindades do ecoativismo radical, pois fiquem a saber que também pago ISP, pelo qual tenho a maior consideração. Este ato de abnegação, que tanto me oprime a conta bancária, deveria concorrer para a libertação de todos os meus males ambientais, para a expugnação da mea maxima culpa, como faziam na Idade Média os pecadores, através da aquisição de indulgências, com as quais se compravam lugares celestiais. Esteve bem, assim sendo, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, ao deixar claro, há dias, numa entrevista ao programa, da “Antena 1”, “Política com Assinatura”, que o Governo não pretendia recorrer a uma descida generalizada dos impostos sobre os produtos petrolíferos para evitar fomentar o aumento do consumo de combustíveis fósseis, o que está em linha com as metas europeias. Tal crime de lesa-pátria sinalizaria incorretamente o uso de viaturas particulares. Clarifico: o cidadão poderia, na sua ingénua ilusão, convencer-se de que adquirir um veículo, pagar o ISV, o IVA, o seguro, a inspeção e a manutenção lhe concederia o extravagante direito de o utilizar a seu bel-prazer. O ISP é, mais do que um imposto, um instrumento pedagógico posto ao serviço de um imperativo moral: ensinar os portugueses a terem modos ecológicos, nas compras do supermercado ou nas deslocações para o emprego. – Dra. Maria da Graça Carvalho, por tão ajuizado reparo, estava disposto a beijar-lhe as mãos! Não encontro em todo o Governo melhor ajudante de campo do Dr. Miranda Sarmento. Receio que algum governo europeu a descubra e a leve no próximo mercado de inverno. Ninguém domina tão bem esta litania dos mandamentos da União Europeia. Jovens de toda a região alentejana, ponham os vossos olhos nesta lição: não estudem, ouçam; abandonem as declinações e equações, copiem disciplinarmente; não desenvolvam o pensamento crítico, ruminem frases pisadas! Façam-no com apreço e empenho e talvez também vocês possam, um dia, vir a dar ministros. De resto, quem são estes homens e mulheres misteriosos e terríveis que, diariamente, impreterivelmente, às 7:15 horas, amarram as crianças na cadeirinha do banco de trás, pousam malas, sacos ou ferramentas ao lado e, no girar de chave ou pressionar tedioso de um botão de ignição, fazem despertar baterias, motores de arranque, cambotas, bielas e pistões, árvores de cames e correias de distribuição, com os quais ferem mortalmente a atmosfera? De Lisboa, não são, assegura-vos este vosso criado, que esses tais lisboetas observo eu a exibir orgulhosamente o seu cartão navegante, uma barganha de 40 euros com que lhes é permitido usufruir de autocarros, comboios, barcos, elétricos ou metropolitanos. Deste lado do Sado estamos descansados! Têm de ser portugueses dessas terras vossas, de Grândola, Alvito, Portel, Cuba, Vidigueira, Beringel, Moura, Santa Vitória, Baleizão, Pias, Serpa, Castro Verde, Ourique, Almodôvar, como quem desce rumo ao Sul, onde o metro não existe, o comboio não chega e se desconhece o horário do autocarro. Ninguém me tira da ideia de que são estes os portugueses que, sem alternativas válidas, estão a contribuir para a nossa decadência civilizacional. Pois saibam que nada vos absolve: que argumentem com a falta de recursos de mobilidade (e a bicicleta, para que se fez?), que os carros de combustão atualmente produzidos na Europa cumprem regulamentos de tal modo severos e draconianos que podemos pôr a mão num carburador e jurar que nunca na história automóvel se produziram veículos com tão baixas emissões de gases poluentes; nem se lembrem de agitar entusiasticamente os relatórios internacionais da base europeia “Edgar” e do projeto “Climate Trace”, que apontam a China como a maior emissora de gases com efeito de estufa e dióxido de carbono, com cerca de 29 por cento, seguida pelos EUA, com 11%, e pela Índia, com uns vistosos 8%: bem os conheço; é também do meu conhecimento que, tudo somado, a União Europeia fica-se pelos 6% e Portugal ronda os 0,1%. Pois nem isto vos absolve! Querem levar o trator para a vindima? Aí têm: 0,1% de emissões nacionais! Que nem tudo sai do cano de escape de um veículo motorizado, diga-se. Para este milésimo percentual também contribui a indústria, a produção de energia, a agricultura e a pecuária, etc., etc., etc..Bom, deixemos isso, não desatemos agora em querelas. Afinal, também eu devo reconhecer que sou o patético proprietário de um veículo de combustão; a vossa responsabilidade não alivia a minha. O meu único consolo é saber-me contribuinte do justíssimo e muito adequado ISP. Só esta paz de espírito que sinto na carteira vazia, após dar de beber uma dúzia de litros de gasóleo ao boçal de quatro rodas, é que me impede de atirar o maldito para as mandíbulas afiadas e infernais de uma prensa de sucata e correr a lançar-me de mãos postas às baterias de lítio de um veículo elétrico. Agora, escutem: se eu me comprometer doravante a beber vinho do Alentejo por palhinhas de papel, posso ao menos circular uns poucos quilómetros para depositar cinco sacos de garrafas no contentor do “Volta”? É que estão há semanas a atravancar-me o corredor e os três euros e meio fazem-me falta.

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