Diário do Alentejo

Esqueci-me de regar as flores
Opinião

Esqueci-me de regar as flores

Vítor Encarnação

20 de setembro 2026 - 08:00

À tarde, à hora em que o céu e a terra perdem o Sol e os olhos perdem a luz, sucumbo ao peso do dia. Levanto-me sempre cedo, uma insónia teima em dormir comigo, acordo ainda noite cerrada e ali está ela a olhar para mim, a alarmar-me, a empurrar-me para fora da cama. Invado o silêncio da casa, saio do quarto, vou corredor fora fazendo uso da memória dos passos e do lugar dos móveis, depois entro na cozinha, rasgo a penumbra com uma lâmpada vívida, o ponteiro das horas ainda não chegou às cinco, pergunto-me o que faço eu aqui, tão cedo, tão inútil, já tão inquieto. Acendo a televisão, já vi tudo antes de me deitar, desligo a televisão, à noite dá outra vez, bebo água, faço café, tomo o primeiro comprimido, evito fazer barulho, os outros não têm culpa do meu desassossego, até o cão já deixou de vir ter comigo, dantes vinha à minha procura, agora já não está para isso, até os cães aprendem que não se deve dar demasiada atenção aos vencidos da vida. Passo duas horas neste limbo, a madrugada a parir o dia, eu a tentar imitar a madrugada, o meu dever de pai e marido é erguer-me, dignificar-me, honrar os princípios e as obrigações, fazer a barba, lavar os dentes, vestir uma camisa branca, umas calças azuis, sorrio, pareço forte e ativo, capaz de decidir e de responder a tudo. Cada hora de trabalho é uma pedra posta em cima do corpo, a alma há muito que morreu debaixo de uma grande, foi no dia em que deixei de acreditar que podia mudar o mundo. E assim, desde esse fatídico dia, imito qualquer coisa que se pareça com um homem responsável e ativo. Mas à tarde vingo-me, dispo a camisa branca e as calças azuis e visto qualquer coisa baça, noturna, uns trapos de trazer por casa e soçobro por entre flores que me esqueci de regar.

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