A cultura não se marca no calendário, o entretenimento sim, dizia o homem sentado na esplanada. Não me fazem sentido as festas e as feiras de hoje em dia, os mesmos artistas que vão rodando até à exaustão, deles e nossa, caros, repetitivos, armados em vedetas, entretendo um bocadinho de uma noite, hora e meia de sucessos radiofónicos e televisivos, letras fraquinhas, músicas batidas, fórmulas repetidas, gestos iguais, roupas parecidas, a malta bebe umas minis, prega uns saltos e sente-se moderno, fazendo parte de um todo onde reina a luz, a cor e a alegria. Na manhã seguinte, ou ainda nessa noite, não há tempo a perder, outra festa já chama, desmonta-se tudo e não sobra nada. Não fica nada de estruturante, de decisivo para a comunidade que promova coesão e preservação da memória. Depois há quem chame a isto cultura, como se essa folia efémera pudesse alguma vez ser a consolidação de uma identidade e de uma pertença, o desenvolvimento de um pensamento crítico, o estímulo da imaginação, da capacidade de reflexão e da sensibilidade estética. Gosto mais de coisas permanentes, mesmo que sejam menos cintilantes; gosto mais desses atos de criação entranhados numa comunidade e que, por serem tão fortes na raiz e tão saborosos no fruto, se entranham em cada geração; gosto mais do que é permanente e fértil, tanta coisa interessante que não precisa de palco, apenas das ruas, dos auditórios, dos anfiteatros, das bibliotecas, das escolas, das vozes, das mãos, da palavras; gosto mais de ver destruídas as minhas certezas e instaurada a dúvida do que de ser mero espetador de um produto padronizado. Mas o que verdadeiramente me preocupa é o facto de, após desmontar o palco, ninguém se preocupar com o vazio da rua no dia seguinte.