Diário do Alentejo

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Vítor Encarnação

07 de setembro 2026 - 08:00

Quando se candidatou, sentiu-se mais uma vez a pôr a sua vida dentro de uma tômbola que alguém há de fazer girar para anunciar o seu novo destino, numa espécie de lotaria a andar à roda nos finais de agosto. São anos e anos às voltas, um ano aqui, outro ali, uma substituição além, outra acolá, já traz o mapa de Portugal tatuado no cérebro. O filho mais novo irá com ela, tem de o levar consigo, não pode deixar tudo lá longe, é menos um por quem chorar.  Quatrocentos quilómetros para ensinar Geografia, cinco horas de carro, de portagens, de combustível, de medo do que vai encontrar. Vai à internet, procura informações sobre a escola, sobre a terra, lembra-se de uma colega que já lá deu aulas, telefona-lhe, tem coisas boas e más, as casas são caras, alguns colegas são maravilhosos, outros são arrogantes, a direção tem dias, a creche não é má, há turmas difíceis. Isso já ela sabe tudo, já apanhou de tudo, alegrias imensas, dores imensas. Confirma o dia em que se tem de apresentar, telefona para a creche para ver se há vaga, começa a fazer as malas, chora quando ninguém vê. Só voltará daqui a um mês, é demasiado longe. Aluga uma casa com um quarto que tem sido guarida para outros professores contratados, faz-lhe confusão não haver fotografias, o frigorífico vazio, as paredes despidas, a estranheza da primeira noite, tudo tão frio outra vez. Desfaz as malas, refaz planificações, aprende outros nomes, aguenta outros feitios, tenta perceber outra pronúncia. Vai ser diretora de turma, não conhece o meio, nem os alunos, nem os pais, socorre-se de um discurso pedagógico, procura sorrisos na sala de professores, lá haverá certamente outros como ela. Tenta não desesperar. Pode ser que para o ano fique colocada um bocadinho mais perto de casa.  

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