Conheço um homem que a sorrir limpidamente nos trata por «Meus caros amigos, minhas caras amigas». Conheço um homem que se não tivesse vindo viver para o Alentejo usaria calções de couro com suspensórios e uma camisa de quadrados miudinhos. Imagino-o no princípio de cada outono, na Oktoberfest, a brindar com uma caneca de cerveja de litro e a gritar O’zapft is. Ainda bem que isso não acontece e esse homem, para contentamento dos nossos sentidos, faz parte do nosso chão e do nosso horizonte. Quis a vida, talvez já o prenúncio de um fado ainda bávaro, talvez já o remate de um despique ainda pensado em alemão, que uma criança trocasse o verde intenso das florestas pelo tom seco dos montados. Para quem acredita que o destino de cada um está traçado, este homem é disso uma prova absoluta. O vento suão e a profundidade da nossa existência foram buscá-lo, precisavam dele, as planuras não podiam viver sem ele, há uma coisa intensa dentro dos seus olhos e do seu coração que esta terra tinha de ter. Chegou e plantou as raízes, enterrou-as fundas neste chão cheio de pássaros e sol. Conheço um homem alemão que é mais alentejano que todos nós, as nossas raízes ao pé das dele são curtas e frágeis, a nossa pronúncia já não se compara com a sua, desbotou. Ele sabe todas as palavras que nós já perdemos, sabe outras, muitas, tantas, que nós já não acreditamos que ainda existam. Conheço um homem que usa sempre a boina de esguelha, que às vezes fica descorçoado, que acareia, que pranta, que se assoma, que faz caso, que come panito quente até a albarda correr para a barriga, que esgravata a terra, que vai cortar a laruça, que tem bicheza. Conheço um homem com um nome difícil de pronunciar que traduziu o seu nome e a sua alma para português do sul.