Diário do Alentejo

Valadas, incitador do futebol em Castro Verde
Opinião

Valadas, incitador do futebol em Castro Verde

José Saúde

28 de agosto 2026 - 08:00

Recuemos à década de 1990 quando fiz mais uma das muitas viagens a Castro Verde, sendo que esta tinha como efeito iniciar-me no mundo da escrita, mas desta feita como escritor, uma vez que jornalista já o era. No jornal desportivo “O ÁS”, por iniciativa do então diretor, Delmiro Palma, que um certo dia me sugeriu dar continuidade ao trabalho anteriormente executado por Melo Garrido – autor de um conjunto de cadernos onde dava a conhecer os princípios desportivos na região de Beja desde o ano de 1904 até 1956 –, incentivando-me aquele saudoso amigo em reativar a pesquisa desse prodígio, elaborando dois livros a que dei pelo nome de Glórias do Passado. Neste contexto, recolhi, antes, informações que um dia me levaram ao “Campo Branco” e a verdade é que essa jornada me proporcionou um vasto leque de surpresas, visto que por lá encontrei histórias de encantar. António dos Anjos, um homem da patinagem e também diretor do grémio castrense, foi o meu cicerone, quem me conduziu ao objetivo delineado. Digno na arte do seu saber, com uma memória onde fluíam dicas de um passado que jamais se haviam olvidados da sua mente, lá entrei na residência de Manuel Joaquim Palma Valadas, que, no alto dos seus 90 anos de vida, desbobinava lembranças de um tempo vivido na juventude que lhe preenchiam o seu cabal espírito. Oriundo de uma geração da qual faziam parte Eduardo Jorge, José Costa, Manuel Fernandes, Cuba, Francisco Silva, Paco, José Cruz, Cândido Alves, José Alves, Álvaro Freire, Manaca, José Baltazar e Manuel Valadas, de entre outros, Valadas, apesar da idade com a qual se deparava, não retirou uma vírgula aos princípios do estonteante “vicio do jogo da bola” que um dia resolveu introduzir em Castro Verde. Nessas recuadas épocas, Valadas puxava pelas velhas recordações e lembrava os dérbis com equipas de povoações vizinhas. As bolas, rudimentares, eram feitas em couro e tinham um “pipo” por onde se enchiam de ar. Não obstante as dificuldades deparadas, o que era normal, Valadas, dizia-me que nesses primórdios “a malta se divertia”. Curiosamente, foi precisamente nestes tempos que se fundou aquele que foi o primeiro Futebol Clube Castrense, sendo que em 1936, Manuel Batista Ramos, aproveitando alguma rapaziada que tinha ainda condições para jogar à bola, fundou o segundo Futebol Clube Castrense. Constatou-se então um certo marasmo desportivo e eis que, a 1 de abril de 1953, José Vicente Colaço usufruiu da excelente ideia em reunir os moços que atuavam no Esperança e no Juventude e fundar o atual Futebol Clube Castrense. Na época de 1956/1957, José Ricardo, assumindo o cargo de treinador, orientou uma equipa formada pelos seguintes jogadores: António Joaquim, Eduardo, Álvaro Semião, Ricardo Colaço, Zuca Pepe, Hélder Coelho, Francisco Pinto e António Alexandre, Reinaldo Afonso, Jacinto Fragoso, Avelino Contente, Francisco Fragoso, mascote António Gomes, Joaquim Baião e Francisco Rita. Hoje, em Castro Verde, vive-se liberdade desportiva, construíram-se novas infraestruturas, o poder autárquico colaborou na valorização dos espaços, o Castrense evoluiu quer no campo competitivo, quer de atletas e a certeza do futuro está seguramente salvaguardada.

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