Diário do Alentejo

A gentileza e outros riscos
Opinião

A gentileza e outros riscos

Vítor Encarnação

16 de agosto 2026 - 08:00

A nossa simpatia é muitas vezes entendida pelos outros como sinónimo de fraqueza. Num mundo dominado por hierarquias e formalismos, em que a falta de empatia prevalece, ser-se gentil pode configurar uma postura risível. A cordialidade vem sempre acompanhada de respeito e consideração pelo outro, nunca se disfarça de cinismo, mas o risco de ser confundida com ingenuidade é imenso. Portanto, não abuse. Seja amável e atencioso, mas mantenha-se lúcido. Nestes tempos em que se mede e compara o tamanho do que se tem e do que se representa, em que se traz a chave do palheiro bem à vista de todos e se faz gala em mostrá-la, em que o balcãozinho de atendimento é um reino absolutista, em que a alarvidade se normalizou e a boçalidade impera e prospera, em que o cargozinho dá uma vaidade que até estala, as fracas imitações de déspotas brandem o cartão do partido e os doutores são mais do que as mães, é preciso estar bem desperto para não nos comerem as papas na cabeça. Por um lado, não nos podemos deixar cair na tentação de nos juntarmos a eles apenas porque não os conseguimos derrotar; por outro lado, as nossas costas nunca devem estar disponíveis para receber umas palmadinhas fingidas. Olhemos de frente e desmontemos as mãos mentirosas, mostremo-nos transparentes, mas assertivos, generosos, mas acutilantes. A defesa dos nossos direitos e a demanda por justiça deve vir sempre acompanhada de um tempo calmo, paciente, ponderado, esclarecedor, não nos devemos mover por preconceitos, desconfianças gratuitas ou malquerenças infundadas. Mas se quem tem o dever de resolver andar indefinidamente a empurrar com a barriga, desobrigue-se de reverências, deixe de sorrir. Pegue no que a vida lhe ensinou e dê um murro na mesa. 

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