O homem abre a porta e entra na casa da família. É a rua principal, de um lado e do outro há mais casas como esta onde moram outras famílias importantes, dentro das suas paredes juntam-se gerações, quem tem posses compra moradias onde caibam todos, quer seja na casa de todos os dias, na casa junto à praia, ou neste retiro no fim da vila. O homem entra e fecha a porta, no rés-do chão vive o seu avô, foi ele que decidiu comprar o terreno. O avô assentou a primeira pedra, pediu que o chão fosse feito dos mesmos ladrilhos da sala, quis preparar o futuro, manter a família unida para sempre nas noites longas que haviam de vir. Todos chegarão a esta casa, estejam onde estiverem virá o dia, o destino o ditará, em que os do mesmo sangue aqui darão entrada e aqui ficarão para sempre. No rés-do chão também vive a sua avó, foi a segunda a vir, foi ela que escolheu as rendas que enfeitam as camas de mogno. Na parte de cima do lado direito está o seu tio, era o mano mais novo, mas a doença não respeita linhagens ou gerações. Em frente, assim que se abre a porta, está a sua mãe, com dois filhos pequenos nos braços viveu viúva durante quarenta anos. Ao lado da mãe, o seu pai. Foi uma questão em aberto até ao último momento saber se ele viria para a casa. O avô nunca gostara dele, a sorte do seu pai foi o avô já ter morrido. Talvez discutam ainda noites fora. Em cima, do lado esquerdo está a sua mulher, é ela que ele vem ver, não conheceu mulher mais bonita, talvez hoje ainda o seja, há coisas que a morte não apaga. Lá dentro, o silêncio parece dizer coisas, o silêncio absoluto diz mesmo coisas. Quem já usou o silêncio para falar não tem qualquer dúvida. O homem sente que está quase a chegar o dia em que não será ele a abrir aquela porta.