Diário do Alentejo

Vítima
Opinião

Vítima

Vítor Encarnação

04 de setembro 2026 - 08:00

Ele é uma vítima. Os colegas de trabalho, a família, os vizinhos e o restante universo conspiram sistematicamente contra a sua santa pessoa. Se há distribuição de tarefas, ele tem mais, se há distribuição de benefícios, ele tem menos, se há horas de sorte, ele não as tem, se há horas de infortúnio, calham-lhe sempre a ele, se há amor, não é para ele, se há tristeza, ele fica com ela toda. Desconfia de tudo, os outros são sempre favorecidos, há um sistema meticulosamente organizado para o prejudicar, uma pérfida mão invisível mexe os cordelinhos para dar vantagem aos outros. Tal como ele o vê e o entende, o sucesso alheio nunca é fruto de mérito ou de esforço, é sempre conotado com esquemas e compadrios. Ele nunca vence porque não o deixam, por muito que tente há sempre conluios que o impedem. Observa os outros e congemina que qualquer sorriso é matreiro, qualquer comentário é cínico, qualquer silêncio é astuto. Não está provado que a condição seja genética, mas desconfia-se que há uma predisposição para aplicar, agora que é adulto, recorrentes conversas caseiras que ouvia desde a mais tenra idade. À mesa, o pai queixava-se, a mãe lastimava-se, são sempre os mesmos a mamar. A criança cresceu a achar que o mundo se uniu para a tramar, o Rui Veloso é que tinha razão. A princípio era apenas uma réplica parental ingénua, uma desconfiança pueril, um amuo adolescente, mas depois, à medida que foi amadurecendo, descobriu que isso era uma excelente estratégia para fazer o seu agosto. Ele grita e ofende, acusa e ameaça. E só para não o ouvir, quem distribui o serviço deixa-o de fora, mais uma vez. Repostos a sua honra e os seus direitos, feita justiça, ele vira as costas e não deixa que os outros lhe vejam o sorriso velhaco.  

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