O calendário da vida diz-nos que estávamos no dia 19 de junho de 1963 e, precisamente, na manhã de um sábado, onde o sol raiava com intensidade. O Clube Desportivo de Beja, considerado então como emblema supremo de uma região que despertava para o universo do futebol, subiu à Segunda Divisão Nacional. A festa da consagração resvalou para inolvidáveis momentos de aprimorado gáudio. As ruas encheram-se de gentes que, em uníssono, deram largas ao inequívoco regozijo. Defronte à sede, e no largo de São João, a multidão ovacionava o galardão conquistado. Seguiu-se uma viagem pelas ruas onde o povo foi adensando um desfile, no qual a cortesia citadina se agregava ao esplêndido cortejo. Rua Conde da Boavista abaixo, cruzando as Portas de Mértola, passagem pelo mítico Café Luiz da Rocha, rua Capitão João Francisco de Sousa, artéria onde se localizava o lendário Cortiço, bíblia do mundo desportivo, “Jardim do Bacalhau”, rua Dr. Brito Camacho e regressando a chusma de gentes ao ponto de partida. Naquela época, 1962/1963, a equipa do Desportivo tinha como treinador o saudoso Manuel Trincalhetas, um homem que nasceu em Beja em 25 de outubro de 1914 e se tornou um guarda-redes de eleição no Luso Sporting Clube. Nessa manhã de grande entusiasmo o “tio” Manuel comandava o desfile com uma enorme bandeira que desfraldava ao vento, sendo esta do Desportivo, cujo apoio do estandarte permanecia assente numa bolsa transportada à cintura. Sublinhe-se, com licitude, que a capitanear o 11 bejense estava o inesquecível Marcelino Lança e como roupeiro o “tio” Firmino, ele também um dos antigos jogadores de Luso. A curiosidade que acrescento à narrativa prende-se com o facto de o clube ser gerido por uma comissão administrativa, eleita numa assembleia-geral, que se assumiu dramática face à ausência de candidatos. O reduzido elenco foi chefiado por Manuel António Ribeiro e acompanhado por Júlio José Toucinho, António Manuel Pacheco Lopes, a que se juntou, mais tarde, António Amaro Figueira. Esta súmula de diretores exercitaram um mandato surpreendente, trabalharam com afinco as canseiras deparadas, lubrificaram a preceito uma locomotiva que tendia emperrar e a verdade é que tudo resvalou para o memorável sucesso. Memórias, estas, às quais tive a oportunidade em assistir, fazendo parte do festejo, tinha nessa altura 12 anos de vida, e que se reflete numa bola rubricada por todos os jogadores dessa temporada gloriosa que se encontra exposta nas vitrinas da casa mãe do Desportivo. É óbvio de que falamos, por ora, em exclusivas lembranças que cruzam épocas áureas, reconhecendo nós que a evolução desportiva regional sul-alentejana tem sido verdadeiramente empolgante. Poder-se-á afirmar com segurança, pois a realidade assim o diz, que novos emblemas deram à estampa, aliás, nas mais diversificadas modalidades, o número de atletas cresceu potencialmente, o desporto ganhou consistência, novas infraestruturas foram construídas, muitas delas graças ao poder autárquico, o universo desportivo tornou-se inquestionável e tudo gira hoje desportivamente a uma velocidade deveras alucinante. Recordando épocas áureas que evoluíram no tempo.