Diário do Alentejo

Ao ritmo do Sol
Opinião

Ao ritmo do Sol

Vítor Encarnação

12 de julho 2026 - 08:00

Estou cada vez mais parecido com o Sol, dizia o homem sentado na esplanada. Obviamente que não pelo brilho, antes pelo contrário, mas pela duração do seu brilho. Quando era novo contrariava o Sol, levantava-me já ele ia alto, deitava-me já ele dormia há muito. Eu, cansado do feitiço da Lua e das suas poéticas e, às vezes, cruéis consequências, desperdiçava manhãs inteiras, desperdiçava café acabado de fazer, desperdiçava papos-secos quentes, estive anos e anos sem ver a alvorada. Levantava-me e a vida já estava em andamento, tudo no seu devido lugar, o horário das lojas, a abertura das repartições, os afazeres das pessoas, os assuntos tratados, os preparativos para o almoço. Deitava-me fora de horas, as ruas desertas, muito gostava eu de sentir as ruas desertas e inundá-las de palavras tardias, etílicas, exageradas. Minhas e de outros como eu, a ecoarem na noite, pássaros noturnos que voavam aos gritos atravessando as janelas e acordando os que tentavam recuperar da exaustão do dia, a chave na fechadura a riscar o silêncio absoluto da casa, a porta a ranger e a arranhar o sossego dos que dormiam ali ao lado. De manhã, o meu pai ia pôr óleo nas dobradiças, ele que nessa altura já se levantava cedo, tal como eu me levanto agora. Tenho um relógio de sol dentro de mim, faço o que ele faz, não se esqueçam que nada tem a ver com o brilho, antes pelo contrário, só tem a ver com o ritmo de vida.  Imito-o, saímos de dentro da noite ao mesmo tempo, erguemo-nos lentamente, faço-lhe café, dou-lhe papos-secos quentes. Depois, governamos a nossa vida, ele no céu e eu na casa e no quintal. Quando ele se vai deitar, eu também vou, entramos na noite de braço dado, despimo-nos lentamente e fechamos os olhos ao mesmo tempo.  

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