A noite escorrega do céu ainda incandescente, vem lenta, afogueada, fica presa nas margens da luz, cola-se ao suor da tarde. A casa dormiu a tarde inteira, a casa ainda está sonolenta, acordo-a para jantar, abro-lhe a janela da cozinha, abro-lhe as portas, dou-lhe todo o ar que as andorinhas já não precisam. A casa agradece, jantamos os dois, somos só os dois, comemos os restos do silêncio em brasa do dia. Não dizemos nada, não precisamos de dizer nada, as casas onde vivemos há muitos anos sabem ler o vazio. Entretanto, a noite conseguiu chegar, ainda com restos de claridade nos olhos. Vou para o quintal, um grilo começa a cantar, não muito longe de mim, talvez encoberto pelas alfaces, talvez escondido na densa solidão que vive no meu quintal. Canta uma vez, depois para, depois recomeça, depois para. Parece que quer saber a minha opinião, faz todo o sentido que me pergunte, afinal estamos só os dois. Digo-lhe que continue, que faça de conta que eu não estou ali, que cante a noite inteira, que me alumie o silêncio. Fecho os olhos e ouço um grilo a cantar junto ao mar, é verão, eu tenho dezoito anos e os meus lábios escorregam para uma boca incandescente. Os grilos são memórias que beijam. Outro grilo canta mais abaixo no tempo, canta lá mais longe, talvez encoberto pelo tempo, talvez escondido na saudade, canta ao lado da minha avó, canta dentro dela e depois, de repente, a minha avó calou-se para sempre. Era de noite, mas apesar disso os grilos calaram-se. Os grilos são lembranças que se ouvem mais quando já não temos avós. Outro grilo canta, ainda mais longe, agora dentro de mim, escondido no meu peito, canta dentro de uma criança que o quer apanhar para o prender numa gaiola amarela de plástico com uma folha de alface lá dentro.