Diário do Alentejo

Gostava de ter duas gatas
Opinião

Gostava de ter duas gatas

Vítor Encarnação

30 de junho 2026 - 08:00

Posso dizer que tenho um cão, um cão permite que o tenhamos, está na sua natureza pertencer-nos. Mas tenho muita dificuldade em dizer que tenho duas gatas, no que diz respeito a gatos, usar o verbo ter é uma presunção e um engano. São mãe e filha, têm as vacinas em dia, estão desparasitadas, gostava que, tal como o cão, fizessem parte na minha família, mas isso é impensável, é desajustado dizer uma coisa dessas. Entram em casa, mas saem logo a seguir, quando estão em casa nunca pertencem à casa. Eu sou o relógio do meu cão, ele espera por mim, espera que eu lhe dê comida, espera que eu o leve ao quintal, espera que eu me deite, espera que eu acorde. As minhas gatas têm um relógio próprio, para elas não há horário de verão ou de inverno, faça chuva ou faça sol, esteja frio ou esteja calor, elas aparecem sempre à mesma hora. De manhã, na altura por elas definida, vêm não se sabe de onde, chegam como dois alarmes mudos, quatro olhos grandes a olharem para mim, presentes, mas distantes, ao meu lado, mas nunca subservientes. Enquanto esperam que eu prepare a ração, roçam-se levemente pelas minhas pernas, comem e vão-se embora, vão à vida delas, vão para não sei onde. À tarde, ou à noite, dependendo da luz que a natureza determina, vêm por onde foram, não faço ideia do caminho, chegam como duas ampulhetas de pelo, quatro orelhas moucas àquilo que eu lhes digo, impávidas, serenas. Enquanto esperam que o quinhão lhes caia na tigela, miam baixinho, um quase sussurro, comem e desaparecem, imagino apenas um silêncio a escorrer das patas telhados fora. Entretanto tenho o cão, o cão assiste a isto tudo e conforta-me, compensa o que não pode ser meu. Há duas gatas que me vêm ver todos os dias, gostava tanto de as ter. 

Comentários