Diário do Alentejo

Investigar para cuidar melhor:  porque precisamos de mais ciência feita no interior
Opinião

Investigar para cuidar melhor: porque precisamos de mais ciência feita no interior

Fátima Cano

28 de junho 2026 - 08:00

O futuro dos cuidados de Saúde no Alentejo não será decidido apenas nos hospitais, centros de saúde e unidades de cuidados continuados. Será também construído através do conhecimento que produzimos sobre as necessidades reais das pessoas e das comunidades que servimos.Durante 27 anos estive junto de pessoas em situação de doença, fragilidade e dependência, prestando cuidados de enfermagem em momentos particularmente exigentes das suas vidas. Acompanhei milhares de histórias de vida. Vi a força da recuperação e a vulnerabilidade da perda. Conheci a angústia das famílias perante um diagnóstico difícil e testemunhei a extraordinária capacidade humana de adaptação perante a adversidade.Ao longo desses anos aprendi muito com os doentes. Foram eles que me mostraram que a doença nunca conta toda a história. Vi pessoas frágeis revelarem uma capacidade extraordinária de recuperação e outras perderem autonomia de forma que nem sempre conseguíamos antecipar ou compreender. Muitas vezes regressava a casa a pensar no que poderia ter feito diferente e no que ainda nos faltava saber para cuidar melhor. Foi dessa inquietação que nasceu o meu interesse pela investigação científica.Muitas vezes associamos a ciência aos grandes centros urbanos, às universidades de referência ou aos laboratórios altamente especializados. Raramente pensamos no Alentejo como um território produtor de conhecimento científico. E, no entanto, talvez seja precisamente aqui que algumas das questões mais importantes para o futuro da Saúde se colocam.O Alentejo é hoje uma das regiões mais envelhecidas do País. A esperança de vida aumentou, mas esse ganho trouxe novos desafios. Vivemos mais anos, mas nem sempre com mais saúde, mais autonomia ou melhor qualidade de vida. Os profissionais de saúde confrontam-se diariamente com situações cada vez mais complexas, em que as respostas do passado já não são suficientes para resolver os problemas do presente. Para quem trabalha diariamente neste território, estes desafios não são números nem estatísticas. São rostos, histórias de vida e famílias que conhecemos pelo nome.Perante esta realidade, a investigação deixa de ser um luxo académico para se tornar uma necessidade prática.Investigar significa procurar soluções para problemas reais. Significa avaliar se aquilo que fazemos produz os melhores resultados possíveis. Significa transformar dúvidas em conhecimento e conhecimento em melhores cuidados.Ao longo dos últimos anos tive a oportunidade de participar em projetos de investigação sobre envelhecimento saudável, funcionalidade, qualidade de vida das pessoas idosas e saúde mental dos profissionais de saúde. Em todos eles encontrei a mesma convicção: as decisões clínicas são melhores quando são sustentadas por evidência científica sólida.A ciência não substitui a experiência dos profissionais. Complementa-a. Dá-nos ferramentas para compreender melhor as necessidades das pessoas e para tomar decisões mais seguras, mais eficazes e mais humanas.É precisamente por isso que a investigação desenvolvida no interior tem um valor tão particular.Quem vive e trabalha no Alentejo conhece de perto as características das suas populações, os desafios da dispersão geográfica, o impacto do envelhecimento e as dificuldades de acesso a determinados recursos. Este conhecimento do território constitui uma vantagem que não pode ser ignorada. Permite-nos estudar problemas concretos no contexto onde eles acontecem e desenvolver soluções ajustadas à realidade das comunidades que servimos.Nos últimos anos tenho assistido a uma mudança que merece ser reconhecida. Hospitais, instituições de ensino superior, autarquias e organizações sociais têm vindo a aproximar-se para construir projetos comuns. Cada vez mais profissionais de saúde participam em estudos científicos, colaboram em redes nacionais e internacionais e contribuem para a produção de conhecimento relevante.A participação de profissionais e instituições do Alentejo nestas redes internacionais demonstra que o conhecimento produzido no interior pode contribuir para responder a desafios que são comuns a toda a Europa. Para além dos recursos que mobilizam, trazem novas perspetivas, promovem a inovação e colocam o Alentejo em diálogo com algumas das mais avançadas instituições de investigação da Europa. Mais do que receber conhecimento produzido noutros locais passamos a participar ativamente na sua construção.Esta transformação representa uma mudança de paradigma.Durante décadas o interior foi frequentemente visto como um território que aguardava soluções vindas de fora. Hoje sabemos que também podemos gerar conhecimento, liderar projetos, produzir evidência científica e contribuir para responder a desafios que ultrapassam fronteiras.Investir em investigação é investir na qualidade dos cuidados de saúde. É investir nos profissionais. É investir na capacidade de atrair talento, criar oportunidades e valorizar o território. Mas é, acima de tudo, investir nas pessoas.Porque cada estudo realizado, cada projeto desenvolvido e cada pergunta respondida têm um objetivo comum: melhorar a vida de quem precisa de cuidados.Depois de quase três décadas a cuidar diretamente de pessoas continuo a acreditar que o conhecimento, quando colocado ao serviço da comunidade, é uma das formas mais poderosas de cuidar.Se queremos um Alentejo preparado para responder aos desafios do envelhecimento, da Saúde e da qualidade de vida das próximas gerações, precisamos de fazer mais do que cuidar. Precisamos de investigar para cuidar melhor.

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